Irmandades negras em Desterro/Florianópolis
- Ênio Brito
- 22 de mar.
- 19 min de leitura

Irmandades Negras. Memórias da diáspora no Sul do Brasil, de Karla Leandro Rasche, objetiva, “compreender, por meio do estudo das festas, procissões e celebração da morte na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, formas de organização, espaços de sociabilidade, modos de celebrar a vida e a morte de populações de origem africana no pós-Abolição em Florianópolis /SC” ( 2026, .27).{1}
Estruturado em três capítulos: Florianópolis e as experiências na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito; A irmandade tomava as ruas: festas e celebrações religiosas na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito e Celebrações da morte.
O leitor (a) se surpreenderá ao constatar a densa presença africana na cidade, presença esta durante muito tempo invizibilizada pela historiografia catarinense (e brasileira). A leitura de Irmandades Negras nos convida a renovar nosso olhar sobre viveres e fazeres de populações negras, em região que tinham os olhos votados apenas para a presença portuguesa, açoriana e alemã. Apresento a seguir uma breve síntese do livro, na esperança de despertar interesse pelo texto original.
Introdução
As irmandades têm sua origem nas corporações de artes e ofícios da Europa, no entanto, no Brasil colonial, passam por ressignificações nas mãos dos grupos culturais africanos. O catolicismo e a devoção aos santos são crioulizados. Duas eram as finalidades das irmandades: “a religiosa, que consistia em celebrar as festas, cumprir as devoções, realizar o enterro cristão dos associados e, a finalidades social, que implicava resolver certos problemas no campo econômico e na parte assistencial em caso de doenças graves e de pobreza extrema” (p.25).
O centro da cidade do Desterro /Florianópolis desde o pós-Abolição era ocupado pela população negra, ao ser modernizado nas primeiras décadas do século XX, passou a ser espaço da administração pública, dos comércios estabelecidos e da prestação de serviços. A população negra migrou para a periferia e para os morros.
Para capturar as expectativas de africanos(as), afrodescendentes, libertos (as) e nacionais livre, Rasche recorre a uma vasta documentação existente na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito – Livros Atas, Livros Caixa, Tabela de Registro de Irmãos, Compromissos de 1842 e 1905 entre outros. Grande parte da documentação disponível refere-se aos séculos XIX e XX. Seu recorte temporal é de 1888 a 1940. Além disso recorre a fotografias do acervo da Irmandade, do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, aos Códigos de Postura da cidade e jornais. Para Rasche, “ as práticas das populações de origem africana em Santa Catarina, no pós-Abolição, apresentam um campo de estudos ainda pouco trilhado por nossa historiografia” (p.33).
A inviabilização da presença africana se autojustifica apelando para pouca demanda do trabalho escravo pelo mercado produtor catarinense, pelo fato dos açorianos não necessitarem de mão de obra cativa e pela crença de que a imigração europeia resolveria as demandas produtivas. A partir da década de 1990 tem-se a inflexão dessa historiografia tradicional e europeizante. “Vale reiterar: este estudo se situa nos termos de um combate pela memória, um engajamento no esforço para retirar das garras do esquecimento as marcas da presença africana” (p.35).
A autora opta pela utilização do termo “afrodescendente” em lugar de negro, visando “dar conta desses múltiplos sujeitos, identidades e significados sociais incorporados por cada um” (p.37). O trabalho, “por meio do estudo das festividades e celebração da morte pretende compreender ações, posturas e práticas desses sujeitos ante a uma cidade que se modernizava e uma Igreja que se romanizava, exigindo novos métodos e modos de agir” (p. 44-45).
A cidade e a presença africana
Algumas questões se impõem: “Quais as relações dos membros da Irmandade com o quotidiano da cidade Desterro/ Florianópolis? Quais os trabalhos, afazeres, espaços de atuação, lazer, devoção e moradia? Como a população de origem africana se organizaram a partir das modificações ocorridas no catolicismo? (p.47-48).
Nossa Senhora do Desterro, fundada por volta de 1651, situada na Ilha de Santa Catarina, tornou-se capital da Província, em 1823. Profundas transformações ocorreram na cidade por ocasião da Proclamação da República, transformações ampliadas durante o século XIX, no âmbito político-religioso. Gradualmente, “ruiu um antigo modo de pensar a cidade, baseado nos ideais lusos, das elites portuguesas” (p.55). As reformas urbanas da capital acabaram empurrando a população afrodescendente para as periferias da cidade e para os morros. Pois, “os espaços desapropriados pelas elites dirigentes, concretizadoras das reformas urbanas, eram ocupados, em grande parte, por populações de origem africana” (p.55).
“Em 1866, a freguesia de Desterro tinha de 4.361 brancos, 1.275 pretos e 838 pardos, em1872, havia 5.884 brancos, 1.910 pretos e 1.296 pardos” (p.60) Os dados relativos a 1890 e 1950 mostram o crescimento contínuo da população em geral e da população preta e parda. “Esses dados apontam indícios de uma presença de matriz africana em torno de 10% da população da cidade em meados do séculos XX” (p.63). Uma fotografia do Mercado Público mostra uma significativa população afrodescendente no trabalho do dia a dia. A presença de mulheres nas ruas da cidade como vendedoras era intensa. Muitos desses trabalhadores(as) eram membros da Irmandade.
“Desterro, até fins do século XIX esteve muito voltada para as atividades portuárias: a comercialização de farinha de mandioca, aguardente e de outros produtos vendidos para alguns estados ou para o exterior; os trabalhadores envolvidos em atividades da marinha, pesca, os marinheiros” (p.74). No final do século XIX, as atividades portuárias entram em declínio. Outro trabalho muito popular na cidade era o dos carroceiros, com forte presença da população afro, serviço muito utilizado pela Irmandade. Outro tipo muito popular era os vendedores de leite. “Os populares de origem africana. longe de serem” ‘viciados’, ‘vagabundos’ e ‘promíscuos’, com induziram crer as autoridades, interagiam, de diferentes formas, com as mudanças urbanas do período” (p.81).
A cidade havia passado por grandes transformações nos anos 1930 e 1940, eliminando do centro os antigos territórios habitados pelas populações de origem africana. Com as transformações urbana em curso, “a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, território de vivências afros no centro da cidade, buscou maneiras de acompanhar estas alterações físicas, de poder e também de luta por espaço e sobrevivência numa realidade de romanização das práticas católicas” (p.87). Romanização e germanização sempre contestadas pela Irmandade.
Compreendendo as Irmandades
Em 1282 em Portugal, São Domingos de Gusmão criou a primeira associação devocional do Rosário, que depois se espalhou por França e Espanha. As irmandades entram em declínio, após a morte de Gusmão, vindo a ressurgir no século XV, com os Dominicanos. “Nos séculos seguintes, temos registros de que as Irmandades do Rosário, surgidas por ‘devoção branca’, acabaram por se tornaram muito comuns em Portugal, no Brasil e em colônias portuguesas na África” (p.88) [2].
Duas eram as finalidades principais das Irmandades: a religiosa e a social. Sua aprovação era dada pela Igreja e pelo Estado, após examinar o Compromisso – estatuto que regulamentava as normas da irmandade e interesses da associação. “Em Desterro/Florianópolis, um grande úmero de irmandades com diferentes objetivos e perfis de associados (as) fez-se presente e atuante na sociedade” (p.91). Uma diversidade significativa de membros compunha a irmandade, o que permite perceber as alianças, desavenças e entrelaçamentos. Em 1891, a disputa de cargos da Mesa Administrativa suscitou uma briga que acabou mobilizando a justiça da cidade.
O primeiro compromisso da Irmandade é de 1750, mas suas atividades iniciaram bem antes, em 1726. A construção da capela tomou tempo e recursos, em 1750 já estava erguida, passando por frequentes reformas. Esta capela foi destruída por ocasião da invasão espanhola, em 1777. [3] As imagens de santos da capela foram transladadas para a Igreja Matriz, aí ficaram enquanto a nova capela estava em construção, que teve início em fins do século XVIII, no início do XIX, as obras ainda não tinham sido concluídas. “É possível que em 1830 já estivesse o novo templo construído. Se assim foi, levara 45 anos a sua construção, o que mostra a soma de sacrifícios que ele exigiu dos pobres irmãos” (p.101). Na verdade, o tempo da escravidão era constituído por vários tempos: do trabalho, da devoção, da festa. “A própria construção da capela denotava uma vivência de tempo, em que ‘sacrifícios’ e sociabilidades em torno de um objetivo comum, reuniam pessoas e experiências” (p.101).
À medida que a cidade se modernizava ajustes foram feitos na capela para acompanhar a dinâmica urbana, como a reedificação do adro que recebeu uma bela escadaria. “As constantes obras, muitas vezes exigidas pelas autoridades e com prazos para a execução, demonstram que a sobrevivência da associação no centro da cidade não ocorreu de forma tranquila” (p.105).
Os Compromissos 1842 e 1905
O primeiro Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito é de 1842, o segundo de 1905. “Pelo costume apenas os ‘homens pretos’ assumiam cargos da Mesa Administrativa, com exceção dos cargos de escrivão e tesoureiro que exigiam conhecimentos de contabilidade, saber ler e escrever” (p.107) [4] Cabia, pois, a ‘homem branco’ funções nobres ou de status na associação. Costume, que ao longo do tempo sofreu modificações, homens pretos começaram a assumir as funções de escrivão e tesoureiro. A Irmandade se preocupava com o letramento, tanto, que abriu uma escola na sacristia da capela, destinada aos filhos de associados, como relata o consistório da associação, em 4 de julho de 1859. O Compromisso de 1905 reafirma a importância da educação, no capítulo XXII, onde propõe a criação de escola a um público maior. Quanto a proposta de 1905, não sabemos se foi concretizada, os documentos disponíveis não informam. Na verdade, no início do século XX, aprender a ler e escrever tornou-se importante para os membros da Irmandade, frente a conjuntura política e religiosa.
No compromisso de 1905, o tesoureiro foi mais valorizado “tinha lugar de assento nas reuniões da Mesa à direita do Reverendo Capelão” (p. 112). Um tesoureiro importante da Irmandade foi Norberto Alexandre Braga, entrou em 1875 e teve intensa atuação até 1910. “Ambos os compromissos, de 1842 e 1905, tem semelhanças: era dever da Irmandade prestar devoção a Nossa Senhora do Rosário,’ sepultar os irmãos defuntos’ e rezar pelas suas almas” (p.116). No Compromisso de 1905, temos algumas cláusulas redigidas pelo bispo D. Duarte, que desvelam a atuação romanizadora da Igreja e da Irmandade. Chama atenção a afirmação de que, em “caso de dissolução ou extinção, todos os bens da Irmandade são devolvidos à Autoridade Diocesana” (p.119). Essa tentativa de controle das irmandades ocorreu em todo o país, a Igreja romanizada se preocupava com a religiosidade vivida pelas irmandades e com sua inserção sócio-política. Estava em curso a tentativa de inserir o padre em todas as atividades autorizadas da irmandade, o que facilitaria o controle.
As duas qualidades exigidas do juiz de Nossa Senhora: zelo e possibilidade. “O costume era escolher um afro para esse cargo, visto que sendo a Irmandade criada pelos homens pretos mantinha este hábito até fins do século XIX” (p.123). O novo compromisso de 1905, mais voltado à beneficência, foi registrado em 1908, teve forte influência do Padre Francisco Topp. “Práticas, posturas e vivências quotidianas foram vigiadas, desestabilizando a Irmandade, como ocorreu em várias outras associações leigas no Brasil, culminando na desarticulação de centenas delas, senão milhares, com extinção e mesmo demolição das capelas (p.127).
Presença feminina e perfil dos(as) associados(as)
As mulheres nas irmandades leigas não participavam nas decisões da casa, não tinham cargos na Mesa Administrativa. Mas, numerosas sempre foram muito ativas, como Mordomas, Zeladoras de Órfãos, como responsáveis pelo cuidado dos altares e alfaias, pela preparação das festividades e pelos cuidados caritativos. Essas mulheres, “a partir dessas funções, inseriam-se em espaços na associação, produzindo convivências comunitárias” (p.139). As irmãs Juízas de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, não tinham poder de voto e nem participavam das reuniões da Mesa, mas estavam sempre envolvidas com as festividades, procissões e enterros.
Qual o perfil dos associados e associadas? O livro de Registro aponta para uma significativa presença de libertos, libertas, filhos e filhas; destes, muitos tinham se filiado ainda cativos, como Domingos Maria da Conceição, preto de nação, que em 1895 foi excluído da Irmandade por não pagar seus anuais. “Alguns irmãos e irmãs tinha matrícula das décadas de 1850 e 1860, quando entraram como cativos, mas com o decorrer do tempo, após a Lei de 13 de maio de 1888, registraram-se novamente, na condição de livres “(p.132). Irmãos e irmãs da Irmandade entre 1728 e 1859, somam 1771 no total, entre cativos e libertos. No registro em geral, não consta a idade, após o compromisso de 1905, o número de registro da idade aumentou. Outro fato que chama atenção é o das expulsões, dos 960 associados entre 1888 e 1937, 219 foram expulsos por motivos diversos, o mais frequente o da ausência de pagamento.
A romanização, acentuada pela germanização em Santa Catarina, contribuiu para esse modelo rígido de gestão. Caetana Bernardina da Costa, 27 anos, matricula-se, em 1902; Caetana de Freitas, 22 anos, matricula-se, em1901, expulsas em 1907. “Com as influências do catolicismo romanizado, as cobranças da Igreja e a perda de autonomia da Irmandade, muitos e muitas não foram simplesmente expulsos, mas talvez, se ‘deixaram ser,’ visto que a associação, nesse novo modo de gestão não atingia mais os objetivos das pessoas, seus sonhos e anseios” (p.140).
O Compromisso detalhava as informações referentes aos recursos e bens e as formas de prestação de contas.” A Irmandade tinha muitos gastos, mas também variadas eram suas formas de arrecadação de fundos” (p.142). Entre eles temos: anuidade, aluguéis de imóveis e de caixões fúnebres e seus acompanhamentos – o Código de Posturas de 1845 exigia que o falecido fosse conduzido em caixão fechado -, doações de joias e objetos de valor. Um cargo importante era o de esmoleiro, que nos meses de setembro e outubro recolhia as esmolas. No entanto, as atividades das Irmandades vão muito além de seu caráter financeiro. “O que movia a associação eram as motivações, sociabilidades, realidades coletivas, corpos, intenções, experiências, mobilidade andanças e esperanças na manutenção da Igreja, da capela construída e da Irmandade ali erigida ainda no século XVIII” (p.149).
Festas: ocupação do espaço público
A festa, com suas manifestações devocionais era um momento de destaque na vida da Irmandade. Suas manifestações festivas sofreram com as intervenções da Igreja, de perfil romanizador e germano, que procura reduzir o poder leigo, modificar as práticas consideradas profanas e introduzir novas devoções e hábitos cristãos. Pode-se perguntar: como diferentes pessoas organizadas numa irmandade leiga dialogaram, lutaram e buscaram, em seus universos culturais e nas alianças do quotidiano, resistir às transformações incorporando alterações nas relações de poderes” (p.151).
As homenagens a Nossa Senhora do Rosário, organizadas pelas Irmandades, datam do século XVIII, pelo menos. “A eleição de rei e rainha do Rosário ocorria anualmente e sempre se elegia um irmão e uma irmã cativo. A exceção de 1790, ano em que o rei foi branco livre” (p.153). O branco livre era Joaquim Francisco do Livramento, que ficou conhecido como ‘irmão Joaquim’. Após sua passagem pela irmandade dedicou sua vida a fazer caridade fundando associações por todo o país.
O registro mais antigo referente à presença de reis africano é da primeira metade do século XVII, o caso não registra uma coroação / eleição, mas uma apresentação ritual durante uma visita do rei Congo ao Recife, em 1642.[5] “O acontecimento, envolvendo danças e simulação de lutas com espadas, foi imortalizado pelo cronista Gaspar de Barleus, encarregado de enaltecer os feitos do Conde Mauricio de Nassau nos trópicos” (p.155). A Irmandade do Rosário de Florianópolis coroou rei e rainha até 1842. O novo compromisso de 1905 suspendeu esses cargos devido as disputas internas. Em geral, as coroações no Brasil aconteciam durante as festividades dos santos pretos ou negros [6].
Festas eram vistas com receio pelas autoridades, mas plena de significados para a vida da população negra. Festividades que chamaram atenção de muitos viajantes, como Spix e Martius, nos anos 1817 e 1820. Em Desterro, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos homenageava seus santos padroeiros pelas ruas da cidade. “No ano de 1841, os cargos de rei e rainha foram eleitos pela última vez, sendo o irmão Eleuterço, ‘escravo de Dona Angelica França’, escolhido para rei e a irmã Laureana, ‘escrava de Dona Ana de Proença’, para cargo de rainha “ (p.160).
A dimensão política da coroação era marcante para a Irmandade. Os reis ocupavam um lugar de destaque na associação, com espaço privilegiado no altar mor. “Em 1815, durante passagem pela Ilha de Santa Catarina, o naturalista Louis Choris deixou um relato, permeado de detalhes, com suas impressões sobre festividades africanas realizadas na Ilha” (p.166). As festas transformavam-se em momentos de renovação de energia, de catarse, indo além do divertimento, ao atualizar tradições e memórias de África. Elementos culturais presentes nas festas sinalizavam uma “autonomia existencial”. Outro viajante que esteve na Ilha, em 1825, Carl Friedrich Gustav Seider, um suíço alemão, extremamente preconceituoso com relação à população africana, na sua visão eurocêntrica das festas, não compreendia “ a singularidade daquela experiência festiva, uma vivência comunitária, um partilhar de sentimentos coletivos” (p.176). O viajante inglês, Urey Lisinasky, aportado na Ilha de Santa Catarina, em dezembro de 1803, teve a curiosidade despertada pelos festejos realizados pela população negra, antes do Natal. Na verdade, “as passagens festivas relatadas pelos viajantes assemelham-se a outras vivencias culturais comemorativas realizadas por populares de origem africana nas primeiras décadas do século XIX” (p.178). A festa é um espaço de liberdade própria de uma vida escrava, momento de festejar sua devoção, encontrar seus “irmãos de fé” e de folia.
Procissão e São Benedito
A procissão era um momento fundamental, quando rei e rainha ocupavam as ruas da cidade. Posturas Municipais e reprimendas policiais eram frequentes na repressão dos chamados “ajuntamentos negros”. Os cerceamentos ficaram mais frequentes, após, a revolta dos Malês, em 1835.[7]
No ano de 1838, “os gastos com a Missa para o dia do Reinado foram 3 mil reis e os montantes de foguetes e bombas, lançados durante todo o período de outubro até o Dia dos Reis em Janeiro, somaram 19$480 réis” ( p.181). Após 1891, sem eleições do rei e da rainha da Irmandade ocorreram modificações na festa. Em 1845, o Código de Postura é mais incisivo na proibição, o que levou a extinção dos cargos de rei e rainha do Rosário. Em 1853, a Irmandade solicitou à Câmara da Assembleia Legislativa a permissão para festejar seus reis, petição negada, com alegação de que a festa ofendia a moral e provocava desordens. “Talvez, aos olhos das autoridades, a quantidade de afro organizados em torno de uma devoção, coroando seu próprio rei e rainha apresentasse ‘perigo’ e, consequentemente, medo de uma possível manifestação contrária à ordem escravista” (p.189). As festas podem ser entendidas como expressão de embates sociais e disputas de poder, espaço de práticas e significados que se alteram ao longo do tempo. “As procissões compostas por diferentes alas, sujeitos e coreografias eram grandiosas festas populares animadoras das comemorações religiosas, significando, em forma de folia, a devoção; uma manifestação de devoção efusiva, contagiante “ (p.194). A procissão saia em alas, cabia ao Irmão Procurador controlar as alas, usava para isso uma vara. O andor conduzindo a padroeira abria a procissão. Na segunda metade do século XIX, estando os cargos de Rei e Rainha extintos, apenas Nossa Senhora era coroada. O calendário das festas acabou sendo alterado: São Benedito seria festejado no dia dos Reis, em 6 de janeiro e Nossa Senhora do Rosário, no segundo domingo de outubro.
Com explicar a devoção dos escravizados (as) a Nossa Senhora do Rosário, uma santa branca. Os historiadores (as) apresentam várias explicações. Para Karla Rasche,” cremos ser o culto a Nossa Senhora do Rosário uma ressignificação de elementos e práticas, não de um catolicismo europeu, mas concretizado pelo improviso, por meio de estratégias culturais de diversas culturas” (p.207). O culto a São Benedito difundiu-se no Brasil em meados do século XVII, após ser atribuído ao santo a cura do filho de uma escrava no Convento de Santo Antônio (RJ). “As histórias de vida, sofrimentos, fé e a cor da pele foram elementos influenciadores na escolha desses santos [negros] pelas populações católicas de origem africana” (p.210). Canonizado, em 1807, em 1841 já se fazia presente no Compromisso da Irmandade. O primeiro registro do culto ao santo é de 1833, neste ano ocorreu a coleta de esmolas em nome de São Benedito.
Repressão às práticas culturais
As práticas festivas da Irmandade sofreram proibições, rupturas e reorganização de suas vivências culturais com a romanização/germanização clerical em Santa Catarina. Nas décadas de 1910 e 1920 a repressão ao profano presente nas manifestações religiosas da Irmandade aumentaram. “As performances envolvendo o corpo, expressões e marcas culturais faziam parte do profano, a ser reprimido, vigiado, impedido” (p.215). O catolicismo crioulizado resistiu as tentativas de controle do processo de romanização de perfil clerical, tridentino, individualista. “Como tradições africanas, pensadas em códigos culturais, experiências comunitárias e vivências grupais, incorporariam esta forma de devoção e ‘salvação’ baseada na individualidade?” (p.219).
As festas da Irmandade se transformaram em espaços de rememoração cultural, onde o corpo marcado por memórias, manifestava por meio do gesto, da música e da dança vestígios africanos. As festas não são momentos efêmeros, ocorridos anualmente na Irmandade. “Festejar significa mais. A ‘festa negra’ é o encontro de sociabilidades, experiências de vida, representando momentos de diálogos, conexões culturais, dissabores e amores” (p. 224). As procissões tinham a sua estética, que foi muito combatida pela visão romanizada/germanizada, As bandas - com seus instrumentos considerados profanos - tambores, pratos, trompas, trombone e demais instrumentos de metal-, foram muito criticadas pelos Sínodos Diocesanos (1910 e 1919). A música e os cantos preocupavam os Sínodos devido a seus elementos profanos, mais pertinentes à forma de vida de populações de origem africanas. Teria a Igreja conseguido atingir seus objetivos de enquadramento da Irmandade, de seus membros e suas práticas? “Afinal, se os tivesse alcançado, não precisaria relembrar duas décadas após a instalação de suas propostas romanizadoras, que práticas consideradas profanas, incoerentes com a devoção católica, precisavam ser combatidas e eliminadas” (p.239).
Celebrações da Morte
“Como as práticas africanas na diáspora, com suas interações com o mundo católico, existentes na Irmandade, manifestaram seus rituais de morte a partir das investidas do catolicismo romanizado?” (p.245). Construído em 1841, o cemitério Público de Desterro acabou sendo transferido, por prejudicar a construção da Ponte Hercílio Luz, iniciada, em 1923. O sepultamento dos membros da Irmandade era feito na própria capela da associação, até 1840, quando foi proibido. A questão de onde enterrar os mortos sofreu grandes interferências, tanto da Igreja Católica quanto das pressões e ideias políticas-sanitárias” (p.249).
Até meados da década de 1880, várias epidemias assolaram Desterro. Na epidemia de varíola, em 1882, a recomendação era o translado do corpo em carroças fechadas/lacradas para evitar a contaminação. Os cortejos fúnebres e os caixões para a condição dos mortos foi objeto de preocupação do Código de Posturas de 1845, quando se proibiu os esquifes das irmandades. Por ocasião da transferência do Cemitério Público do ‘Morro do Vieira’ para a região no Itacorubi, foi exarado, em 25 de setembro de 1824, um Edital solicitando as associações e aos particulares a exumação dos corpos e o translado dos mesmos para o novo espaço no Cemitério de Itacorubi.
“O medo de ter o corpo insepulto ou ser sepultado sem honra, fez com que pretos e pretas quisessem um funeral cristão. Dessa forma, não apenas o morto recebia uma morte digna, mas também a Irmandade mostrava sua pompa e os cuidados com seus mortos” (p. 255). O catolicismo praticado por populações de origem africana tinha formas diferenciadas de lidar e sentir a morte.
Eventos fúnebres
Em Desterro, nos séculos XVIII e início do XIX, o costume era de enterrar os corpos envoltos em mortalhas. No funeral, se preparava o morto para o encontro com os ancestrais, diferente da ideia cristã de apenas ‘salvar as almas’. O uso de mortalhas adequadas facilitava essa passagem. Jean Baptiste Debret relatou e pintou eventos funerários que revelam a cosmopercepção africana da morte. “O funeral, antes de direcionar-se ao cemitério, realizava práticas litúrgicas na casa do falecido e na própria capela da associação a qual pertencia” (p.275).
Era função do Procurador ou em algumas irmandades, do irmão Andador comunicar o falecimento de um membro e convocar para o cortejo. se organizar o ‘espetáculo fúnebre’ de certa maneira reconstituía-se a ordem perdida, ajudando os vivos a reconstituir a vida sem o morto. “Os ritos fúnebres em culturas afro, assim como demais momentos de passagem – nascimento, casamento, ritos de iniciação-, são fundantes, pois refazem tempo cíclicos, constituem fluxos contínuos, potencializando vivências comunitárias” (p.278). A morte não significa o abandono de um corpo morto, inerte, inativo, mas a ritualização de sua experiência de vida, ao celebrar suas realizações e memórias. “O corpo não se extingue no momento da morte, pois sua função, a partir da passagem para o mundo dos mortos, é atuar neste mundo para estabelecer, ou manter o equilíbrio” (p.279). A experiência da morte na cosmopercepção africana não se constitui experiência para ser vivenciada na solidão, mas em conjunto.
“Podemos crer que a constituição de um catolicismo diferenciado, múltiplo, permitiu que, para além dos rituais católicos ‘oficiais,’ outras práticas culturais, simbólicas, fossem efetuadas pelas populações de origem africana na diáspora” (p.284). O Compromisso dava uma especial importância aos benfeitores, pessoas importantes para a vida da associação, o enterro deles deveria ser solene. Consta, em ato de 6 de setembro de 1908, a contratação pela Irmandade de uma casa funerária para auxiliar nos enterros, o contrato foi de 36$000 (trinta e seis mil réis anuais). Quanto às mortalhas, a Irmandade fornecia uma branca aos pobres. A mortalha falava pelo morto protegendo-o na viagem para o além. A mortalha franciscana era a preferida. Os africanos tinham uma grande preocupação com os funerais, o morto era acompanhado, rezava-se por sua alma num projeto para além vida. “Ter acompanhamento funeral, um lugar certo para sepultamento, sinos tocando, orações, missas, rezas pela alma durante a passagem ao além vida, era privilégio dos associados” (p. 295).
Os sinos e suas sonoridades eram presença marcante nas principais cerimonias da Irmandade, especialmente, dos enterros. A presença e a atuação de populações de origem africana se fazem presente nas Irmandades, nas escolas de samba e nos clubes da cidade. “Territórios marcados por códigos culturais de matriz africana e cujos traços envoltos no samba, na religiosidade e nas expectativas de vida possibilitaram a criação e a consolidação de espaços múltiplos de vivências, memórias e história” (p.303).
Pontuações finais
Irmandades Negras de Karla Leandro Rasche oferece aos seus futuros leitores uma apresentação extraordinariamente rica da vida da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos. Extraordinária pela opção analítica feita de desvelar as práticas religiosas e culturais africanas presentes na vida da Irmandade. Opção que nos convida a renovar nosso olhar sobre viveres e fazeres das populações negras na cidade de Desterro/Florianópolis. À medida que se avança na leitura o catolicismo e a devoção aos santos ganham um perfil crioulizado, frente a um processo de romanização/germanização em curso na cidade. Processo de romanização que procurou controlar práticas, posturas e vivências comunitárias dos membros da Irmandade.
A resistência a esse processo se deu de diversas maneiras, principalmente através das festas e dos funerais. O espaço festivo possibilitava aos irmãos(as) opor-se às pressões do poder, rememorando seus universos culturais e, “ a singularidade daquela experiência festiva, uma vivência comunitária, um partilhar de sentimentos coletivos” ( p.176).( Grifo nosso) Para Rasche, as festas tão cuidadosamente preparadas pela irmandade, se constituíam num espaço insurgente, isto é, num espaço de liberdade própria de uma vida escrava. Entende-se, então serem elas também expressão de embates sociais e atraírem a repressão não só de um catolicismo clerical, tridentino e individualista, mas também da cidade /estado que se modernizava. A autora, na apresentação das performances festivas da irmandade resgata a importância do corpo, que carrega memórias que se manifestam por meio do gesto, da música e da dança. “A festa negra é o encontro de sociabilidades, experiências de vida, representando momentos de diálogo, conexões culturais, dissabores e amores” (p,224).
Uma das práticas africanas na diáspora, que marcava distância do catolicismo romanizado, eram os rituais de morte. O funeral cristão foi acolhido e resignificado pela Irmandade. A preparação do morto para o encontro com os ancestrais marcava a distância da visão cristã. Os ritos fúnebres na vida das Irmandades potencializavam vivências comunitárias ao ritualizar, ao celebrar a memória e as realizações do morto, pois, na cosmopercepção africana: “o corpo não se extingue no momento da morte, pois sua função, a partir da passagem para o mundo dos mortos é atual neste mundo para estabelecer, ou manter o equilíbrio” (p.279).
A autora brinda seus leitores (as) com análise minuciosa de fotos e pinturas de viajantes, que por aqui estiveram, facilitando a recepção do texto. Acompanhar a vida religiosa e social da Irmandade é enriquecer nossa visão de uma das associações africanas mais significativas e importantes do período colonial e imperial.
Anotações
[1] RASCHE, Karla Leandro. Irmandades Negras. Memórias da diáspora no sul do Brasil. Curitiba: Appris Editora, 2026. pp. 322.
[2] Para presença das irmandades negras em Minas Gerais, ver GOMES, Lidiane mariana da Silva . Irmandades Negras. Educação, Música e resistência nas Minas /gerais do século XVIII. Jundiaí: Paco Editorial, 1019.
[3] Em fevereiro de 1777, 117 navios da esquadra de Dom Pedro de Cevallos desembarcou na praia de Canasvieiras e tomou de assalto a Ilha de Santa Catarina, importante ponto de abastecimento para embarcações que se dirigiam para Bacia do Prata. Com o Tratado de Santo Ildelfonso, em 1777, Portugal recebe de volta o território.
[4] Para um contato com Compromissos, ver FILHO, Amilcar Vianna Martins. Compromissos de Irmandades mineiras no século XVIII. Belo Horizonte: Crisálida, 2007. Edição com reprodução fac-similar dos compromissos da Irmandade de Nossa Senhora das Mercês dos Pretos Crioulos; Irmandade da Virgem Senhora do Rosário dos Pretos do Arraial do Morro Vermelho de Sabará; Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos da Freguesia de São José da Barra Longa entre outros.
[5] Com relação ao Rei negro, ver o importante estudo de SOUZA, Marina de Mello. Reis negros no Brasil escravista. História da festa de coroação do Rei Congo. Belo Horizonte:UFMG,2002.
[6] Com relação à devoção aos santos negros, ver OLIVEIRA, Anderson José Machado de. Devoção Negra: santos pretos e catequese no Brasil colonial. Rio de Janeiro; Quartet, FAPERJ,2008.
[7] REIS, João José. Rebelião escrava. A história do Levante dos Malês em1835. Edição Comemorativa de 20 anos. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.



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