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Negros dos Matos. Histórias de comunidades quilombolas de Sergipe Del’ Rey (séc. XIX)

Negros dos Matos
Negros dos Matos

Igor Fonsêca de Oliveira, em Negros dos Matos. Histórias de comunidades quilombolas de Sergipe Del’ Rey (séc. XIX), “procura analisar as experiências e as vivências desses escravizados que, em algum momento das suas vidas, deixaram a propriedade dos seus senhores e passaram a residir em comunidades quilombolas situadas nas matas do Vale do Cotinguiba, a partir da segunda metade do século XIX” (2023, p.15). Trata-se de comunidades volantes, não estáveis que tecem laços de solidariedade e se refugiam nas matas buscando melhorar e dar novos rumos às suas vidas.

No desenvolvimento da pesquisa, o autor recorre a uma documentação primária, correspondência produzida no âmbito da secretaria de polícia da província de Sergipe, autos de perguntas submetidas nos quilombolas recém capturados.

Para Igor Oliveira,” não existe ainda um estudo que se preocupasse em discutir de modo mais particular e sistematizado as experiências dos quilombolas que estavam acoitados nas matas do Vale do Cotinguiba na segunda metade do século XIX”(p.31). Originalmente, o livro é fruto da tese de doutorado em História defendida na Universidade de Pernambuco (UFPE).


Introdução

O estudo está estruturado em seis longos capítulos. No primeiro, intitulado “O Vale dos fugidos. (Cotinguiba, séc. XIX)” apresenta a região e a população escravizada, composta por negros crioulos, apontados como responsáveis pela resistência escrava. Em, “Qual seu nome, idade, ocupação... (Re)visitando as discussões sobre perfis e padrões de fugas   escravas”, recorre aos autos de perguntas, impetradas contra escravizados (as) recém-capturados. Nele busca-se dar uma contribuição aos estudos sobre os padrões de fugas escravas. No terceiro capítulo, “Estratégias...quem foge vs quem captura”, realiza uma análise minuciosa das estratégias da secretaria de polícia de Sergipe para eliminar as comunidades quilombolas. Em, “A comunidade quilombola volante do São José”, acompanha muito de perto as vivências e as trajetórias de uma comunidade de escravos fugidos, no início da década de 1870. O capítulo quinto, “João Mulungu”, segue de perto a saga do líder das comunidades quilombolas do Vale do Cotinguiba. No capítulo final, “Para Além das matas: as ações quilombolas na década da Abolição”, foca a resistência escrava a partir dos quilombos, acoitados nas matas do Vale do Cotinguiba.


Estado da arte

Quem por primeiro escreveu sobre os quilombos em Sergipe foi Clóvis Moura, em Rebeliões da senzala, de 1959, contrapondo-se a ideia de democracia racial de Gilberto Freyre. Para o antropólogo Felte Bezerras, em Etnias Sergipanas, os quilombos são fruto da estrutura repressiva dos donos de escravos, contudo para ele nossa escravidão foi mais branda que a americana. Para defender o comportamento dócil desses donos de escravos baseou-se no depoimento do vigário Dom Marcos de Souza, em sua Memória sobre a Capitania de Sergipe Del Rey, de 1878. “Dom Marcos de Souza era uma pessoa de muito prestígio, detentor de um posicionamento político-religioso marcante em momentos conturbados na História do Brasil” (p.19).

Nos estudos dos quilombo de Sergipe Del Rey, durante um longo período predominou a perspectiva materialista de análise. Se inserem nesta perspectiva analítica, Clóvis Moura, já mencionado. Para ele, a proximidade dos quilombos das propriedades senhoriais, possibilitou uma “sistema de guerrilhas”, isto é, ataque de surpresa às forças repressivas. José Alípio Goulart, em Da fuga ao suicídio, de 1972, Ariosvaldo Figueiras, em O negro e a violência do branco: o negro em Sergipe, de 1977. Para esses estudiosos, o aquilombamento se dava num ambiente para além da escravidão contrapondo à ordem pública.

Como era visto o modelo de economia dos quilombos? Para Décio Freitas, como uma “economia predatória”, para Stuart Schwartz, uma “economia parasitária”. Expressões que “não explicam a complexa estrutura econômica de sobrevivência presente na maioria dos quilombos do Brasil” (p.24), uma vez que esquecem da relação simbiótica, que os quilombolas desenvolveram com comunidades vizinhas e moradores. Relações, que não podem ser padronizadas dada a complexidade das mesmas.  A leitura economicista é superada com a renovação dos estudos históricos, a partir do 1980.  O conceito de “campo negro”, idealizado por Flávio Gomes, aponta para “os contatos estabelecidos pelos quilombolas com pessoas que residiam nos arredores dos seus coutos” (p.29). Frente a essas comunicações rotineiras entre quilombolas, faz-se necessário perguntar, “o que permitiu que esses indivíduos, em determinado momento, se aproximassem, interagissem socialmente, negociassem e compartilhassem interesses comuns, mas que nem por isso deixavam de possuir motivações distintas” (p.30).


As matas do Vale do Cotinguiba

A presença escrava no Vale do Cotinguiba ocorreu com a disseminação da cana de açúcar. “Essa região corresponde a um pequeno pedaço da Zona da Mata Atlântica que atravessa Sergipe. Tratava-se de uma região de pequena dimensão, mas que apresentava um enorme potencial natural, especialmente em relação ao solo e aos muitos rios que a serpenteavam” (p.35). Um mapa produzido no ano de 1831 mostra as freguesias com seus engenhos encravados nas encostas dos rios. Com o crescimento econômico, as freguesias antigas foram transformadas em vilas. A partir de 1855, a cidade de Aracaju torna-se a capital da província de Sergipe Del Rey”. A cidade de Marvin, se destacava por recepcionar e escoar a produção açucareira do Vale do Cotinguiba. No ano de 1798, a maioria dos 140 engenhos que existiam em Sergipe se encontravam situados no Vale do Cotinguiba” (p.37). Um segundo mapa, produzido no ano de 1844, confirma que as propriedades açucareiras tinham se concentrado no Vale e que as novas propriedades passaram a ocupar solos distantes das encostas dos rios.

“Há um consenso entre os estudiosos ao caracterizar os engenhos de Sergipe Del Rey como propriedades de pequenas dimensões e que, por isso, dispunham de pouca mão-de-obra escava” (p.41). A partir do início do século XIX a mão de obra escrava ampliou-se. “No ano de 1802, a escravaria residente em Sergipe Del Rey correspondia a 35% do montante da sua população; a maior proporção de sua história” (p.42.). Os escravizados introduzidos em Sergipe vinham dos portos das grandes capitanias. Dois documentos mencionam desembarques clandestinos de escravizados nas costas sergipanas. O primeiro de 24 de março de 1838 e o segundo no ano de 1842, o corsário Antônio Maria “desovou” cerca de mil escravizados na Barra de São Cristóvão. Segundo esses dois documentos, os escravizados desembarcados eram africanos livres, pela Lei de 7 de novembro de 1831. Os escravos naturais da África representavam, apenas 1/3 da população escravizada de Sergipe, o que mostra ser o processo de crioulização da escravaria de Sergipe muito precoce, iniciando bem antes da Lei Eusébio de Queiroz, em 1850. “Três em cada quatro escravizados que ali residiam na primeira metade do século XIX eram nascidos no Brasil” (p.45).  A dependência do método de reprodução natural revelou sua fragilidade no período da epidemia cólera morbos, em 1855 e 1856. Estima-se que 30 mil mortes ocorreram na província, atingindo a produção açucareira, a produção de alimentos.

A assembleia provincial para proteger a mão-de-obra elevou o imposto a ser pago pelo escravo(a) vendido para outras províncias.  Um dado presente na escravaria da província era da paridade sexual, o que é confirmado pela análise dos inventários post mortem. Havia uma prevalência de núcleos parentais entre as comunidades das senzalas, os quilombolas procuravam manter o contato com seus núcleos parentais.

A presença de quilombos em Sergipe, com o tempo se deslocou de regiões inóspitas para a proximidade de núcleos populacionais, nas primeira metades do século XIX. Nesse período, ocorreram em Sergipe motins organizados por gente de cor.


Quilombos e sedições

A primeira notícia da presença de quilombos em Sergipe Del Rey foi dada por Francisco Adolfo Varnhagem, em 1877; a segunda por ocasião da invasão holandesa, em meados do séculos XVI. Para combatê-los, dividiu-se a capitania em quatro distritos: Itabaiana, Lagarto, Rio de São Francisco e Piauí, cada um deles com presença regular de um destacamento. Em Sergipe, nos primeiros tempos os quilombos se faziam presentes em regiões inóspitas, gradualmente, passaram a ocupar regiões próximas dos núcleos populacionais. As sedições eram frequentes, como as ocorridas nos distrito de Rosário do Catete e Laranjeiras, em meados de 1824. Os levantes ocorridos no Haiti e na Bahia- revolta dos Malês, em1835, repercutiram em Sergipe Del Rey.

Na primeira metade do século XIX, a preocupação era com o controle dos atos de sedição encabeçados pelos nagôs residentes no Vale do Cotinguiba. “Na segunda metade do século XIX, essas preocupações estariam mais centradas nos escravos crioulos, os quais estariam reunidos em pequenos quilombos situados nas matas das propriedades açucareiras dessa região” (p.63). Paulatinamente, os crioulos assumem o protagonismo que antes era dos nagôs. “Na segunda metade do século XIX, os crioulos estavam no comando de dezenas de comunidades quilombolas espalhadas pelas matas do Catinguiba” (p.70).


Depoimentos de escravos(as) recém capturados.

No Brasil, os registros e depoimentos de escravizados (as) em primeira pessoa são poucos. As pesquisas em andamento não conseguiram ainda compreender como “os escravos pensavam a respeito do mundo em que viviam e como lidavam com seus desafios e riscos” (p.74) (Silvia Hunold).

Quem eram esses escravizados(as), quais eram as suas motivações, interesses, estratégias? O pioneiro no estudo dos anúncios sobre escravizados nos jornais foi Gilberto Freyre, em 1930. Luís Mott, por primeiro analisou os anúncios nos jornais de Sergipe Del Rey, seguido de Sharyse Amaral. Estudos, que detectaram serem os crioulos adultos e do sexo masculino os mais propensos a escaparam do cativeiro, em período relacionado com o ciclo produtivo das propriedades e o ciclo festivo religioso, Um aspecto pouco estudado é o “que concerne as primeiras experiências vivenciadas por eles e (elas) após deixarem as propriedades de seus senhores” (p.73). Na busca de respostas, o autor analisa um corpus documental composto por 23 autos de perguntas feitas a escravos (as) recém-capturados. Documentação com conteúdo qualitativo, por trazer a voz dos escravizados (as). “Os autos aqui analisados são documentos produzidos por autoridades da secretaria de polícia de Sergipe” (p.75).

A “qualificação do escravo” constatou que grande parte dos escravos depoentes se acoitavam no Vale do Cotinguiba e que muitos eram crioulos, “escravos nascidos no Brasil podiam se mostrar mais capazes de aprender a política de negociação desenvolvida nos campos dos costumes e do poder senhorial, uma vez que se encontravam mais a par das práticas costumeiras ensejadas nas microrregiões e nas propriedades de onde eram oriundas” (p.81). O agudo processo de crioulização ocorrido em Sergipe possibilitou que os escravizados pudessem praticar diversas ações de resistência com sucesso.

Dentre os escravizados ouvidos, 73% deles era do sexo masculino, alguns estudos apontam 75%. Não se deve a partir desses dados inferir que os homens estavam mais aptos para escaparem do cativeiro. Faz-se necessário dar uma maior atenção as ações das mulheres no curso da resistência escrava desenvolvida a partir dos quilombos.  “Seguramente, para muitas mulheres quilombolas, a autonomia conquistada a partir da evasão do cativeiro não poderia ser plena sem que para isso, pudessem ainda obter o controle sobre os seus corpos, a maternidade e o destino das suas crianças” (p.86). Em Sergipe, as experiências vivenciadas pelas quilombolas Thomasia, Luisa e Francisca, experiências essas relacionadas ao propósito de exercer melhor a sua maternagem, o que não acontecia nos quilombos.

Auto de perguntas

Limôa, Thomasia, Francisca e Vivência são algumas quilombolas submetidas aos autos, algumas delas mães. Vivência foi a que passou mais tempo no mato. Elas, após deixarem os quilombos mantiveram o contato com as senzalas, o que contribuiu para a perpetuação de algumas comunidades. Reanalisar os quilombos no Brasil ressaltando o papel desempenhado pelas mulheres escravizadas, que se encontravam inseridas nessas comunidades é um desafio necessário e urgente.

A ruptura do vínculo com o domínio senhorial ocorria segundo os autos e os anúncios entre os 20 e 40 anos. Escravizados, mas idosos, também fugiam. A maioria dos fugitivos trabalhavam no eito. “Em Sergipe, no ano de 1873, 85,11% da população escrava estava ocupada com os serviços do eito” (p.97).

Em que período ocorriam as fugas? Pelos autos, quando se encontravam ausentes das residências dos seus senhores e principalmente nos períodos das festividades cristãs, Natal, São Pedro, São João e São Luís. Dados reveladores de uma percepção do tempo por parte dos escravizados(as) ligada ao circuito cristão mas, também, às experiências vividas por eles/elas no cativeiro. Talvez, o mais significativo seja o fato dos autos de perguntas revelarem o que aconteceu após a opção de fugir, seja “por fuga reivindicativa” ou por “fuga de rompimento”. Poucos autos trazem o destino imediato dos escravizados(as) após a fuga. “Fugir antes de ser um ato desesperado, era um ato pensado, ponderado, maturado” (p.109).


Estratégias quilombolas vs estratégias policiais    

Quais as principais estratégias utilizadas pelas comunidades quilombolas do Vale do Cotinguiba para escaparem do cerco policial? “Tão importante quanto escapar, seria manter-se nessa condição” (p.111). As estratégias adotadas estão relacionadas com as particularidades populacionais e arquitetônicas dos quilombos e com as características naturais da região do Vale do Cotinguiba.     

Os capitães do mato, responsáveis por capturar escravos fugitivos já atuavam, em Sergipe, na primeira metade do século XVIII.  O capitão do mato surgiu no Brasil após a queda de Palmares, com a intenção de evitar o surgimento de novos quilombos.  Posto que não podia ser ocupado por qualquer pessoa, sua nomeação passava pela secretaria de política das províncias.  Na segunda metade do século XIX, as marchas contra os quilombos eram coordenadas pelos delegados municipais com apoio da secretaria da polícia, que cedia soldados para empreitada ou recorria a Guarda Nacional, cujo trabalho não era bem visto pela população. Com o tempo, uma nova estratégia foi adotada -o sistema de emboscada-, que não era fácil de ser realizada, pois os quilombos, com suas  sentinelas podiam  evitar ataques surpresas.

A prática da guerrilha escrava não era uma prática costumeira dos quilombolas do Vale do Cotinguiba. Uma estratégia mais segura era por parte dos quilombolas, “abandonar o rancho, se embrenhar nos matos e alcançar pontos que, naquele momento aparentavam ser mais seguros” (p.132). A alferes João Batista da Rocha era muito solicitado para comandar diligências contra os quilombolas. “Tratava-se, como se pode notar, de uma pessoa muito admirada entre as autoridades municipais. Isso era devido, muito provavelmente, ao seu compromisso e ao modo como atuava contra os quilombos do Vale do Cotinguiba” (p.136).

As expedições eram custeadas pelo poder público. Outra estratégia adotada pelas autoridades do Cotinguiba no combate aos redutos quilombolas era a “espia”, pessoa que fornecia dados sobre os quilombolas. “No Cotinguiba, muitos delegados contavam com os serviços de espias enquanto arregimentavam soldados para compor as diligências” (p.143). Serviço que comportava riscos. No entanto, “seduzir e coagir escravos das senzalas e, até mesmos, das próprias comunidades quilombolas era uma estratégia que podia ser muito mais comum do que os documentos primários permitem entender “ (p. 151). No Vale do Cotinguiba do século XIX, escravos das senzalas e quilombolas constituíam redes de solidariedade. Não era incomum senzalas serem usadas como ponto de encontro e abrigo de quilombolas. Depoimentos de quilombolas colhidos nos autos confirmam essa complexa rede de alianças.


Contra a perpetuação dos quilombos no Vale do Cotinguiba

“No início da década de 1870, o quilombo situado nas matas do engenho São José, na vila do Rosário do Catete, atraiu parcela substancial das operações policiais empreendidas pela secretaria de polícia de Sergipe” (p.157). O ataque não ficaria restrito as matas do engenho São José, mas estenderia por outras matas do Rosário do Catete e vizinhanças. A operação teve início no dia 13 de setembro de 1871, com 150 praças da Guarda Nacional e, mas um outro destacamento arregimentado pela delegacia da Capela, comandado por Jeremias Roberto de Carvalho, composto por 90 soldados. “Em suma, o plano era promover ataques concomitantes a acampamentos situados em pontos distintos, porém ambos situados nas imediações da vila de Rosário” (p.158). O fracasso da operação foi atribuído ao fato de ter vazado a notícia da arregimentação dos soldados para compô-la. O quilombo do São José era composto por uma população volante, conectado com escravos das senzalas e a outras unidades quilombolas do Vale do Cotinguiba. Tal rede de contato entre quilombolas e escravizados das senzalas dificultava qualquer diligência policial e possibilitava o escambo de produtos, uma economia mercante de alimentos, importante para contribuir na preservação da saúde dos quilombolas.

Para a secretaria de polícia de Sergipe, as primeiras medidas contra a perpetuação dos quilombos deveria partir dos senhores, impedindo qualquer relação e contato entre seus escravos (as) e os quilombolas. No ano de 1872, foram realizadas 26 operações contra os quilombos do Vale do Cotinguiba. Dados colhidos nos autos de escravizados (as) recém capturados permitem vislumbrar a estrutura espacial e administrativa do quilombo São José. “ele era composto, aparentemente, por quatro ranchos os quais se encontravam dispersos pelas matas da propriedade” (p.184). Cada rancho era dirigido por um líder.

Os interrogatórios de escravos(as) deixou claro que o desafio era minar a rede de solidariedade estabelecidas com as comunidades das senzalas. O escambo de produtos possibilitou que eles [os quilombolas] permanecessem em constante mobilidade, acoitando-se em pontos diversos das matas de Cotinguiba, sem precisar plantar ou produzir (p.193).


A saga de João Mulungu

O crioulo João Mulungu passou para a história como o mais perigoso quilombola de Sergipe Del Rey. Nascido no Piedade, engenho situado na vida de Itabaiana, vindo mais tarde morar no engenho Mulungu no município de Laranjeiras.  Fugiu, em meados da década de 1860, com 17 ou 22 anos. Segundo autoridades policiais, já em 1871, estaria comandando duas dezenas de quilombolas, dispersos nas matas do engenho Limeira, em Divina Pastora, nas matas do engenho São José e em Rosário do Catete.

As autoridades policiais buscavam extrair informações sobre ele, de escravizados(as) recém capturados, como de suas amasias Ana Rita e Vicencia. Ambas confirmaram a existência de uma rede solidariedade entre quilombolas e escravizados do Engenho da Limeira. O delegado João Batista da Rocha era o encarregado de empreender a caçada contra os quilombolas das matas de Rosário do Catete e Divina Pastora. Nas matas do Rosário do Catete e Divina Pastora, ele esbarava na cumplicidade do coronel João Maria Vieira Nabuco e na oposição do juiz municipal de Divina Pastora. Entre 1871 e 1875, jogão Mulungu escapou de vários cercos, mudando sempre de pouso.  Esta mobilidade dos quilombos dificultava enormemente a captura. João Mulungu contou sempre com o apoio da mãe e da irmã, o que mostra que a evasão do cativeiro não implicava sempre numa ruptura total com parentes e conhecidos.

A captura de Bacurau (Maximiano), em 26 de janeiro de 1875, companheiro de João Mulungu foi muito sentido por ele. Ao interroga-lo descobriu-se a existência de um mercado clandestino rentável dirigido por esses quilombolas; Bacurau acabou sendo vendido para o Sul. Em janeiro de 1876, após o cerco comandado pelo capitão João Batista de Rocha Banha, Mulungu foi capturado nas imediações do Engelho Flor da Roda, após oito anos de fugas. Imediatamente enviado para Aracaju. Pelo auto, ficamos sabendo a razão de sua fuga, castigos exagerados de seu senhor.

Uma primeira sentença foi exarada no dia 12 de abril de 1876, em Rosário, uma segunda, em agosto de 1876, em Capela. “Quando somadas, somente essas duas penas, indicavam que João Mulungu deveria: permanecer recluso pelo espaço de um ano, cumprindo galés; suportar, por um ano uma gargalheira presa ao seu pescoço; e receber pouco mais de 800 acoites em seu corpo” (p.249). Passados nove meses da captura, ele desaparece da documentação. Teria retornado ao engenho depois de cumprir a pena? teria sido morto? Teria sido enviado para o presidio de Fernando de Noronha?  Uma prática muito comum dos senhores era vender escravos insubordinados para o sul do Império. O nome de João Mulungu continua ecoando na história de Sergipe.


Para além das matas

Um movimento realizado por proprietários de escravos quilombolas recém capturados   era vende-los para o sul do Império, visando amealhar algum dinheiro e livrar-se de escravos problemáticos. As autoridades policiais no ano de 1876 e seguintes empreenderam constantes marchas contra quilombolas, como Laureano, Manuel Jurema, Frutuoso. Presos conseguiram se evadir e foram novamente capturados. Na década de 1880, a rebelião escrava não se dava só pelas fuga, mas dentro das próprias senzalas. “Os impasses e os novos rumos da política nacional de emancipação servil adotado na Corte empurrava, cada vez mais, a ‘onda negra’ para perto dos prédios senhoriais” (p.277).

As relações entre senhores e escravos passa por mudanças significativas nas quais a resistência escrava estava se concretizando no próprio lugar de trabalho. O número de quilombolas tinha se reduzido, mas continuavam preocupando as autoridades. Na década de 1880, em Sergipe Del Rey, mais especialmente no Vale do Cotinguiba, um novo perfil de resistência se fazia presente, sem abandonar o aquilombamento. No início do ano de 1888, as fugas deixaram de ser individuais para serem coletivas, em massa.

Já a partir de 1880, a secretaria de polícia de Sergipe Del Rey vinha associando a participação de abolicionistas em atos de rebelião escrava. As autoridades consideravam o abolicionista Francisco José Alves, como um incitador da resistência escrava. A rebeldia escrava ampliava, pois, entre eles circulava a ideia de que “os escravos do Brasil estavam naquele momento ‘libertos por lei’, não devendo eles aturar qualquer “opressão dos seus senhores” (p.290). Após 18 de maio de 1888, as matas do Vale do Cotinguiba passaram a ser ocupadas por ex-escravizados, que ainda sofriam perseguição das instituições policiais. Nos dias que se seguiram a abolição da escravatura, o movimento migratório de negros (as) em direção a Aracaju só aumentou. Uma nova História das populações negras estava iniciando, mesmo com inúmeras dificuldades.


Pontuações finais

Flávio Gomes, muito oportunamente, nos relembra no Prefácio que, “a obra que os leitores tem em mãos não trata de questões atuais. Mas as investigações e reflexões que ela contém oferecem pontos de observação interpretativos, localizam mapas metodológicos, indicam lentes e reconhecem bússolas acadêmicas e intelectuais para entender faces e fases históricas sobre os quilombos e suas transformações contemporâneas” (p.9).

Sinalizo a seguir dois pontos de observação interpretativa que merecem serem ampliados. Um primeiro desafio colocado para a historiografia é o de dar visibilidade ao papel das mulheres nas comunidades quilombolas. Como elas contribuíram para a sua perpetuação? Quais as suas atividades no dia-a-dia dos quilombos? Como encaravam a maternagem? Que papel tiveram na transição para as comunidades remanescentes? Quais foram as estratégias empregadas por elas para manutenção de valores de convivência e resistência?

Um segundo desafio é o de aprofundar na explicitação dos inúmeros laços de solidariedade que os quilombolas teciam no dia-a-dia com outros escravizados, com os proprietários e com a população. A visão de isolamento dos quilombos, ainda, se faz presente em muitas leituras da experiência quilombola. Construir esses relacionamentos implicava em negociações, em percepção de um tempo adequado e tantas outras questões.

Um minucioso levianamente e estudo da documentação policial deixa claro, por um lado o receio, o medo que a presença dos quilombos no Vale do Cotinguiba despertava nos senhores, por outro, as inúmeras estratégias e dinâmicas utilizadas pelos quilombolas para sobreviverem nas matas nos arredores dos engenhos.

Um terceiro desafio relaciona-se com a mudança no perfil demográfico de escravos no Vale do Cotinguiba, predominância dos crioulos. Constatação que pede uma análise demográfica minuciosa para se detectar o processo de perfil demográfico em curso no Sergipe Del Rey.

Negros dos Matos será uma referência importante na historiografia dos quilombos em Sergipe Del Rey, ao demonstrar de maneira cuidadosa e convincente sua presença, estratégias de sobrevivência e resistência. O livro é inspiração para que outros estudos regionais possam superar leituras padronizadas e apontar para as especificidades dessas vivência na vasta extensão territorial do pais.


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