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O extraordinário movimento paredista dos ganhadores na capital da Bahia (1857)

·       Ênio José da Costa Brito


·       Ser livre para escolher onde viver, e quando e onde morar, e ainda poder acumular os frutos de seu trabalho, eram as aspirações da maioria dos africanos livres. (Beatriz Mamigonian) [1]

 

Na greve de 1857 “escravos e libertos africanos resistiram de maneira sistemática, embora pacificamente, e lograram vencer as regras que buscavam minar sua autonomia na coordenação do trabalho de ganho” (João José Reis)

 


Em Ganhadores: a greve negra de 1857 na Bahia [2], João José Reis se debruça sobre um tema que lhe é familiar: a resistência dos escravizados. No caso, resistência demonstrada pelos trabalhadores de rua, sobretudo escravos e libertos nascidos na África ante os poderes ´públicos: a polícia, a Câmara Municipal, o Governo Provincial.

Nas palavras do autor:


este livro busca descrever e entender o que foi o primeiro movimento grevista envolvendo todo um setor sensível da classe trabalhadora urbana no Brasil, trabalhadores responsáveis...pelo transporte, por toda a cidade, de pessoas livres de vária ordem e objetos de todo o tipo” (REIS, 2019, p. 17). [3].


Organizado em 15 capítulos, muito bem ilustrados, apresenta o primeiro movimento grevista que paralisou a cidade de Salvador, numa segunda feira de junho de 1857. Para as autoridades baianas, os ganhadores tinham participado da “revolta do Malês” (1835); daí o projeto político de controlá-los, através da imposição de taxas e impostos. O plano era “desafricanizar a cidade”, pressionar os ganhadores africanos a abandonarem a cidade e regressarem à África ou trabalhar no eito.

Esta Nota Bibliográfica, num primeiro momento colherá as ideias básicas de cada capítulo, para num segundo momento tecer breves comentários [4].


        1-A paralização na cidade negra


Quem eram esses trabalhadores de rua? Na sua quase totalidade africanos livres e libertos, principalmente, jejes, nagôs e haussás. Viajantes que passaram por Salvador, no século XIX, foram unanimes em testemunhar a presença negra na cidade: “a rua era dos negros e negras”.

Na Bahia desembarcaram cerca de 1,5 milhão de escravizados, vindos, especialmente da costa dos escravos [5]. O tráfico deu um perfil negro a cidade, nela os brancos eram minoria, apenas 30%. Nos primórdios do século XIX, 67% da mão-de-obra escravizada na cidade era constituída por africanos. Na sua grande maioria trabalhavam como ganhadores, entre os mais bem remunerados eram os carregadores de cadeiras, constituíam 15% da mão de obra de Salvador. Trabalho difícil dado a geografia da cidade, riscos de acidentes e doenças eram frequentes entre esses trabalhadores. A imprensa corporativa acabou por associar o ganho ao crime. No entanto, “a reputação de trambiqueiros não refletia os valores predominantes entre os ganhadores, que precisavam gozar de confiança de seus clientes para trabalhar e sobreviver” (p. 65).

A paralização, contestando a postura de 1857, deixou as autoridades desnorteadas, pois, não era revolta, não era quilombo, as formas clássicas de resistência escrava, não era sequer um protesto contra a escravidão, mas uma suspensão do trabalhador africano, e não apenas o escravizado contra o Estado (p. 17-18).

Desde março de 1857, tramitava pelos órgãos competentes uma postura municipal com novas exigências com relação aos ganhadores: matricular-se na Câmara Municipal, circular com a chapa de metal com o número da matricula. Promulgada, em junho de 1857, desencadeou o movimento grevista, que durou dez dias.

Porém, mais do que seu texto, o espírito da lei interpretava o ganho como coisa de negro que trabalhasse na rua, e ainda mais especificamente, de negro nascido na África, na época chamado ‘preto’ para distinguir do ‘crioulo’, sendo este o preto nascido no Brasil” (p. 24).

As diversas posturas municipais, como a de nº 87, 90, visavam controlar, constranger, disciplinar o africano no espaço público, de dia e de noite, no trabalho e no laser e, no limite expulsá-lo da cidade.

Em 1857, a paralização dos carregadores foi de todo um setor específico, ocorrendo antes da dos tipógrafos do Rio de Janeiro de 1858, por isso é considerada pioneira.


2-Canto, espaço rizomático


O trabalho “informal” na cidade estava nas mãos dos nagôs. Efetivamente, “a origem étnica africana representava, desse lado do Atlântico, a estrutura, a ossatura da vida social, religiosa e até mesmo política dos africanos” (p.69, a citação é de Katia Mattoso). Solidariedades e disputas marcavam a dia a dia desses grupos étnicos, traumatizados pela experiência comum da escravidão. Reiteradamente, tendo como eixo a nação africana (nagô, jeje, angola, etc.) esses grupos se constituíam realizando intercâmbios culturais, religiosos, negociações de identidades e redefinições de vínculos.

Os ganhadores, ao gozar de uma certa autonomia no trabalho, preservavam a noção de tempo africano - episódico e descontínuo - e adequavam o ritmo e o volume de trabalho. Ao recorrerem a música, asseguravam uma certa “estrutura de integridade comunitária”, criticavam o sistema, zombavam dos brancos numa linguagem simbólica e cifrada (Cf. pp. 76 s). “Substância cultural do modo de ser africano e seus descendentes na Bahia, a música os acompanhava em tudo de mais (e mesmo de menos) importante na vida, na alegria ou na dor” (p. 81).

A dimensão comunitária da vida dos (as) africanos (as) explica e dinamiza a organização do trabalho. Os cantos, organização de matriz africana, estabelecidos em geral nas esquinas, era a alma da organização do trabalho [6]. Para Reis:

muito mais do que mera estação de trabalho, o canto era um nicho cultural, um conjunto de sociabilidades em que dimensões étnicas, de classe, gênero e territorialidade convergiam, se entrelaçavam, transformavam; um ambiente em que diferentes culturas dialogavam e visões de mundo eram compartilhadas – onde enfim, o futuro era planejado (p. 86).

Os cantos não eram comunidades acéfalas, mas liderados pelo capitão – sua liderança carismática, competente e eleita – responsável pelo funcionamento da instituição. Eles abrigavam, ainda, a junta ou caixa de crédito, um sistema análogo ao da esusu, instituição de crédito africana. Não só o mercado do trabalho era dominado pelos africanos, mas também o de alimentos, este, em especial pelas mulheres

Entre canções, cantos e redes, as relações de trabalho forjadas pelos africanos nas ruas, feiras e mercados constituíam um vetor da política negra. A rebeldia coletiva não estava fora da agenda de ganhadores escravizados e libertos, que desempenharam importante papel na revolta africana de 1835, a dos malês” (p. 99).

A lei 14 de 1835, sancionada em 1836, decretou o fim dos cantos, agora rebatizados de capatazia. Lei draconiana, que humilhava os ganhadores com suas exigências, além de ser uma intromissão do Estado nas relações escravistas. Escravizados e libertos usaram de muitas estratégias para sobreviver e não se curvar às autoridades fiscais.

A resistência e desobediência, principalmente, dos ganhadores contribuiu para que ela não fosse extinta, em 25 de abril de 1837, pela resolução nº 60 do governo da província.

Com posturas municipais o governo visava controlar tudo e todos. Uma postura desrespeitada, com frequência, era a de nº 135, que proibia os ambulantes de usarem a calçada (passeio). A revolta silenciosa e pacífica por parte dos ganhadores (as) venceu mais uma vez a prepotência municipal e provincial.


3- “Perigo negro”, o Governo Provincial e a Câmara Municipal


O governo provincial - derrotado no ano das capatazias em 1837 - recorreu a cobrança de impostos e aos censos para o controle político e policial dos africanos da cidade de Salvador.

Francisco Gonçalves Martins, futuro barão e visconde São Lourenço, ao longo de sua brilhante carreira política de chefe da polícia a presidente da Bahia, encarnou a política antiafricana, mais do que antiescravista perseguindo os africanos por razões políticas, culturais e raciais. A tese defendida por Martins e seu grupo, “era tanger os africanos da cidade - pelo menos aqueles dedicados aos ofícios mecânicos e ao ganho de rua - para que fossem servir de força de trabalho escravizada ou dependente e barata no campo” (p. 125).

Visando afastar os africanos libertos da cidade, a lei nº 9, de 13 de maio de 1835, proibiu a posse de imóveis, instituiu um imposto de 10 mil réis anuais para quem negociasse e a lei provincial nº 344, de 1848, proibiu o trabalho nos saveiros.

Gonçalves Martins, na abertura de trabalhos da Assembleia Provincial (1851), defendeu a lei dos saveiros, apresentando-se como paladino do trabalho livre. Sua obra teve continuidade em outros governos provinciais, mas teve também oposição do presidente da província João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, crítico da lei dos saveiros, opositor da perseguição fiscal, que visava ruralizar os africanos ou forçá-los a retornar à África.

As reformas implementadas pela elite baiana prejudicaram, especialmente, os libertos africanos e os pequenos escravocratas urbanos, entre eles havia muitos ganhadores.

A lei nº 9, não só inaugurou uma guerra fiscal contra os africanos, como trouxe recursos para os cofres provinciais. Ao longo dos anos, a legislação tributária só ampliou a capitalização (1848), impondo altas taxas que cresciam cada ano, aplicando multas, como a de 50 mil réis pelo descumprimento do registro, impondo pesadas punições aos não pagadores.

Se os impostos pagos por saveiristas e marinheiros escravizados oneravam seus senhores, os que incidiam sobre outras atividades atingiam mais diretamente o africano liberto (p. 154).

Uma prática recorrente dos libertos era a solicitação de isenção do imposto; inúmeros eram os motivos alegados: pobreza, idade avançada, família, doença, cidadania. Frente aos procedimentos burocráticas, africanos (as) apresentavam as mais diversas razões para escaparem, burlar, ou aliviarem a carga fiscal. A sonegação e a emigração contribuíram para a queda da arrecadação.

Na década de 1850, o retorno à África cresceu. Os que desejavam retornar tinham de cumprir um amplo protocolo: anunciar na imprensa, obter passaporte, tirar folha corrida, etc. Em 1857, o Jornal da Bahia publicou vários anúncios de viagem. Companhias de Navegação que tinham participado do tráfico clandestino (1831 - 1850), “agora faziam dinheiro transportando legalmente africanos libertos de volta à África” (p.169).

O movimento eclodiu em julho de 1857, paralisando a cidade de Salvador, o setor de transporte, monopolizado por Paraso Canhoeira Junior e particularmente por Rafael Ariani, não deu conta de suprir a demanda.

A discussão da paralização pelos órgãos competentes, Câmara Municipal e Palácio Presidencial foi tensa, pois o Presidente Sinimbu pedira a suspensão da taxa de matrícula e a gratuidade das placas. Ele visava proteger os comerciantes e usuários, em geral. Pedido acatado sob protesto pelos vereadores, para eles, os africanos queriam “eximir de toda e qualquer fiscalização(p.178).

Na Bahia urbana, os ganhadores africanos livres ou escravos, não só se organizaram em cantos, mas, também, em associações de ajuda mútua, como a Sociedade Montepio dos Artistas e a Sociedade Protetora dos Desvalidos.

A parede entrou no terceiro dia com duas pendências: a fiança a ser cobrada dos libertos e a exigência do uso das chapas de metal. Seu uso para o governo era de fundamental importância, para os ganhadores motivo de escárnio, desprestígio e baixa estima. No terceiro dia, a comunidade se fez presente, mulheres e moleques africanos se associaram aos ganhadores para desencorajar as deserções e enxovalhar os desertores, muitos estimulados pelos seus senhores.

No quarto e quinto dia, a imprensa percebeu a dimensão política e perturbadora do movimento. No entanto, para a imprensa conservadora, a Província era “governada por africanos” ( p.199: o negrito é do periódico  Jornal da Bahia, de05/06/1867), dada a despreocupação do Presidente Sinimbu.

Os ganhadores retornaram ao trabalho numa segunda feira, dia 8 de junho, sem a chapa de identificação. Na terça, a Câmara Municipal revogou a postura, substituindo por outra: “para os ganhadores, o resultado da parede seria motivo de celebração moderada. Caíram o imposto, o pagamento pela chapa e os termos da fiança” (p 192). No entanto, na nova postura, a chapa agora gratuita permaneceu e a punição para quem infligisse a lei era severa.


4-O pós-greve


A greve terminou no dia 12 de junho, nesse dia o número de matrículas realizados pelos senhores aumentou consideravelmente.  Os requisitos de matrícula, nas suas diversas formulações, revelam, entre outras coisas, o círculo de relações tecidas pelos escravizados; a dimensão paternalista e a autonomia de muitos libertos. Estes recorriam a subdelegados, juízes de paz e inspetores de quarteirão distantes, portanto do círculo de dependência pessoal e senhorial para escrever a petição de matricula.

No entanto, “os africanos tinham plena consciência de estarem sendo marcados para baixo, desclassificados na comparação com os ‘operários de outras classes’ ” (p. 211).

Dois fatos marcaram o término da greve, em 12 de junho de 1857, o comparecimento de muitos ganhadores com chapa para trabalhar e o alto número de matrículas de libertos.

O sucesso parcial do movimento fora inegável – mesmo sendo silenciado pelo mundo político -, no entanto não conseguiu derrubar a obrigação de se usar a chapa de metal, ponto motivador da greve. O movimento exigiu muita preparação, sincronicidade na realização, com certeza contou como apoio dos cantos, autenticas redes sociais econômicas e políticas, que tinham como protagonistas os nagôs, predominantes entre os ganhadores libertos.

Para Reis ocorrera “uma espécie de pan-africanização da identidade étnica na segunda metade do século XIX baiano” (pp. 220 - 221). Se a identidade étnica os unia, a condição sociojurídica entre libertos e escravos os separava. Divisão superada pela solidariedade cultural e étnica.

A greve não era desconhecida dos escravizados, ocorria com certa frequência nas Américas. A de 1857, seria porém, uma greve fiscal, no marco da economia moral, contra a violação de costumes estabelecidos ou, dito de outro modo, a introdução de procedimentos que perturbariam não apenas a rotina do ganho, mas o jeito de ser gente dos trabalhadores de rua “(p. 223).

Entende-se, então, a resistência em usar a chapa. “A tal chapa não marcaria por muito tempo os corpos dos ganhadores (p. 228). A perseguição à autonomia dos ganhadores tem história: além dos arrolamentos, impostos, fiscalização ostensiva, matrícula, chapa, fiança e repressão policial, houve tentativa, já no ano seguinte à greve de afastá-los do mercado de fretes definitivamente (p. 230).

Tentativa feita recorrendo à lei nº 576 de 30 de junho de 1855, que concedia o monopólio para uma futura companhia de carros a Manoel Jerônimo Ferreira. Acrescente-se, ainda, que o regulamento de 1861 tributando pesadamente os africanos que mercadejavam: o projeto de lei, em 1866, proposto por João Nepomuceno - poeta e escritor satírico -, que atribuía todos os males da cidade aos africanos e a criação da União e Indústria (UI), em 1870,  por Francisco Hygino Correia, ex-combatente da guerra no Paraguai, para atender brasileiros e ex-combatentes nesta contenda [7]. Em 1871, a UI era objeto de pesquisa, sofrendo pesadas críticas, além de ter favorecido o acirramento da tensão entre crioulos e africanos.

O ressentimento contra africanos era típico de nativos contra imigrantes, no caso negros brasileiros versus negros d’além mar, tensão de ordem étnica – não racial – potencializada pela percepção de prosperidade que se tinha alguns africanos (p. 251).

Em 1876, se fortificaram os trabalhadores do mar e os cantos que tinham aberto suas portas aos crioulos na contramão da UI.


5- Nova política de controle


Em 1880, quando o novo regulamento dos cantos baianos entrou em vigor, transferindo para a polícia o controle dos ganhadores livres, libertos e nascidos no Brasil, a escravidão declinava.

O novo código, com seus onze artigos, organizava e controlava o funcionamento dos trabalhos dos ganhadores, ao estabelecer uma relação direita entre o chefe da polícia e o chefe dos ganhadores; ao obrigar todos os membros a se registrarem junto à polícia e a usar camisa com identificação do canto. No entanto, “os ganhadores foram deixados livres para definir seu governo interno e suas relações com o mercado” (p. 262).

O Livro de matrícula tem sua origem nos registros lavrados pelos capitães de seus subordinados, entre 1887 e 1889. Nele encontram-se registrados 89 cantos presentes na malha urbana, particularmente, na zona portuária. O Livro de matrícula informava, também, que o mercado de trabalho não estava coarctado ao carrego, outras profissões como pedreiro, carpina, marceneiros e ferreiros etc., eram exercidas pelos membros dos cantos, agora crioulizados.

Qual o perfil dos ocupados no trabalho de carregar mercadoria em 1887? Eram trabalhadores vindos de fora, da África, do interior da Bahia e de outras províncias. Os africanos gradualmente davam lugar aos negros e mestiços. Para Nina Rodrigues (1887) os africanos nos cantos para preservarem sua exclusividade étnica se isolaram, o que é negado pelo Livro de matrícula.

Afora a questão da exclusividade étnica africana e da reunião de africanos de diversas nações nos mesmos cantos, temos documentada no Livro de matrícula a mistura entre africanos e gente da terra no trabalho de rua em Salvador (p. 286).

Etnicidade e cor da pele contribuíam para o controle dos ganhadores, com o aval das teorias raciais. Estas “iriam definir o continente africano como o infeliz berço genético do negro brasileiro e, em parte, de seus mestiços” (p. 294).

O Livro de matrícula aponta para uma presença significativa de pretos, pardos, cabras, caboclos e brancos nos cantos na véspera da abolição.

Além da paulatina substituição dos africanos pelos nacionais, esta é outra novidade do período: a participação de mestiços e até de brancos no mundo dos cantos, trinta anos antes inteiramente preto, e preto da África (p. 297).

Treze dos dezesseis escravos de Porcina Maria de Jesus, conhecida como chapadista, estavam alocados no mesmo canto AX, situado no largo da Guadalupe. Porcina nasceu em Rio Pardo – MG, mulher rica, dona de escravos e possuidora de várias casas. Alguns de seus escravos formavam uma banda, Música da Chapada, que se apresentava em eventos religiosos e profanos. Mulher de caráter forte e empreendedora esteve à frente de seus escravos controlando-os nos trabalhos de suas obras ou de outros.  Escravista de peso, teve que conviver com fugas e insatisfação de seus escravos, recorrendo às vezes ao castigo físico. Ao morrer mostrou-se generosa, deixando bens para seus herdeiros e alforriando alguns de seus escravos.

Os libertos de Porcina constituíam um dos mais importantes cantos de trabalho da freguesia de Santana e devem ter participado desse empuxo final para a derrocada do regime escravocrata (p. 315).

Em 1888, a banda animou a rua nas celebrações pela abolição.

A dinâmica de entrada e saída dos cantos fazia parte da rotina dos mesmos. Saia-se espontaneamente ou expulso. O Livro de matrícula, em geral, não indicava os motivos. Vale lembrar que uma das funções básicas dos capitães dos cantos era zelar pela paz interna mantendo a coesão e a solidariedade do grupo.

A acusação de roubo de mercadoria, falta grave, poucas vezes foi registrada, contudo, “fora das folhas do Livro de matrícula rolavam registros mais regulares de ganhadores presos por roubo” (p. 320; o destaque é meu). Desordem, também, era motivo de desligamento do canto. Alguns expulsos, ao se regenerarem era readmitidos.

Controlar a movimentação à noite, agora, não só de negros e negras, mas de crioulos, que constituíam as emergentes “classes perigosas”, era uma importante obrigação da polícia. Para escapar desse rígido controle e reivindicar espaços, alianças eram tecidas, como dos ganhadores com os caixeiros, que se uniram para preservar um espaço de sociabilidade, uma casa de baile.

“Cicatrizes produzidas por facadas, tiros e acidentes de trabalho, bem como doenças e deficiências físicas, abundam nas folhas do Livro de matrícula” (p. 331).  Outra marca presente nos corpos era a tatuagem - marca voluntária -, fazia parte da cultura marítima.

Para Cesare Lombroso e seus discípulos, como Raimundo Nina Rodrigues e especialmente Álvaro Ladislau Cavalcanti d’Albuquerque, as tatuagens constituíam um sério indício de tendência à delinquência.

No Brasil, bem antes da criação do Livro de matrícula, os tipos de intervenção no corpo, como tatuagens, escarificações e dentes limados, - já auxiliavam na identificação de escravizados. Os anúncios de fuga, por exemplo, recorriam com frequência a esses sinais para facilitar a identificação e captura de fugitivos.

Essa longa tradição classificatória não permite afirmar que o Livro de matrícula tenha se inspirando em teorias vindas da Europa. Os muitos sinais presentes nos corpos dos ganhadores apontam para a exploração voraz e secular dos trabalhadores, agora próximo da abolição, a maioria nacionais.


6- Pontuações


Esta Nota Bibliográfica não dá conta da extraordinária riqueza de informações presentes em Ganhadores, nem consegue reproduzir a leveza da narrativa. Quem acompanha a produção historiográfica de João José Reis não pode deixar de notar quão prazerosa se tornou a leitura da mesma, graças a leveza da tessitura.

Retomo alguns tópicos que considero significativos, sem ter a pretensão de apontar todos. Primeiramente, quero chamar a atenção para a minuciosa etnografia do trabalho de rua; para realizá-la o autor recorreu a rica iconografia disponível sobre os negros de ganho e aos inúmeros relatos dos viajantes. Numa população que oscilava entre 70 a 100 mil habitantes, cerca de 8 mil viviam do trabalho de ganho. Os leitores (as) percebem sua importância depois de terem sido preparados e introduzidos na difícil vida de libertos e escravizados pelos dois primeiros capítulos.

Um dos pontos altos da pesquisa é a apresentação dos cantos, sua origem, suas características e suas funções vão sendo apontadas ao longo do texto. Os cantos era uma peça fundamental no sistema de ganho, vigente na sociedade baiana do oitocentos, com seu mercado de trabalho segmentado. Seu perfil político é visualizado pela presença atuante em todas as revoltas ocorridas na cidade em 1807, 1814, 1835, 1836: “as autoridades baianas estavam tão seguras do seu papel na revolta de l835 que, após derrotarem os rebeldes, decidiram impor severo controle sobre aquelas organizações laboriais” (p. 17) [8].

A peça-chave motivadora da greve foi a exigência de libertos e escravizados usarem a chapa de metal identificadora.  A rejeição tão veemente do seu uso por parte dos ganhadores aponta para um dado marcante da cosmopercepção africana, a importância do corpo. O corpo negro, espaço de resistência, de preservação da memória, território sagrado precisava ser preservado [9].

A greve de 1857 denuda para os leitores (as) duas guerras em andamento na sociedade baiana: guerra fiscal e guerra contra os africanos. A guerra fiscal com seus altos e baixos, mas permanente, prejudicava especialmente os libertos e escravizados. Os exorbitantes impostos cobrados tornavam mais difícil a sobrevivência em condições tão adversas. As ganhadeiras, por exemplo, pagavam um imposto muito alto para mercadejar (veja Grahan, 2017; [10] os africanos para permanecerem na cidade pagavam um imposto de 10 mil réis. A postura que desencadeou a greve cobrava 2 mil réis pela nova matrícula e 3 mil réis pela chapa, com esse dinheiro podia-se comprar na época 15 quilos de carne.

A guerra contra os africanos, exacerbada após a revolta dos malês, em 1835, instaurou um processo de desafricanização da cidade, com o apoio do governo, da elite e dos meios de comunicação. Vale lembrar que o tráfico Salvador – África (Golfo do Benin) foi intenso, assim, por um longo período a presença demográfica dos africanos foi marcante em Salvador [11]. Entende-se, então, o multiplicar de posturas que visavam diretamente os africanos.

A intencionalidade de ambas as guerras era bem definida: expulsar os africanos, responsáveis por todas as mazelas da sociedade soteropolitana. Não deixa se ser impressionante o fato de a elite baiana depois de usufruir e enriquecer com o trabalho dos africanos e africanas, queria vê-los longe da cidade, se possível na África.

A greve de 1857 mostrou, claramente, uma dimensão fundamental da vida de libertos e escravizados, a dimensão comunitária, que possibilitava coesão, solidariedade e resistência no dia a dia de libertos e escravizados. “ao assalto fiscal e a outros ataques a eles dirigidos no e em torno do ambiente de trabalho” (p. 355).

Ganhadores. A greve negra em 1857 na Bahia ao trazer à luz passagens ocultas/silenciadas pela produção historiográfica revela sentidos que nossas percepções cotidianas não dão contas ou não querem dar conta. Abre, assim, a possibilidade de uma releitura do nosso cotidiano, com seus dispositivos autoritários, incrustrados na ordem estabelecida, que permite suspender o direito de pessoas e grupos, com a justificativa de preservar a ordem. Ilumina, pois, as sombras escravistas ainda presentes no imaginário e nas estruturas sociopolítica e religiosas da sociedade brasileira e latino –americana.

Na esteira de Agamben, pode-se dizer, sem titubeios, que a vida de segmentos inteiros, em especial, da população negra, caem sob o estado de exceção, ao serem eles reduzidos à vida nua, exposta a toda a sorte de violência (Agamben, 2004; Teixeira, 2015) [12].Portanto, uma contribuição de Ganhadores é a da crítica de nossa contemporaneidade. Um pequeno esforço analógico por parte dos leitores (as) confirma o que nos sugeriu a leitura desta obra minuciosa e aguda de João José Reis.

Ganhadores requer uma leitura cuidadosa que permita constelar tantas informações, constelação esta que possibilitará a percepção das raízes de muitos dos males sociais e políticos presentes ainda na sociedade brasileira nos albores do século XXI.


Notas


[1] Ver o MAMIGONIAN, Beatriz. Africanos Livres. A abolição do tráfico de escravos no Brasil. São Paulo: Companhia da Letras, 2017. Para uma resenha desta monumental pesquisa. Brito, Ênio José da Costa. Rever, v.18, n.3 set/dez, pp.251-257, 2018.


[2] REIS, João José. Ganhadores. A greve negra de 1857 na Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. ISSN 978-85-359—3243-0, 452 p.

 

[3] Passaremos a indicar nas citações apenas a página.

 

[4] Esta Nota Bibliográfica publicado em Antígona 13 – Publicação do Toro-Escola de Psicanálise. Maceió: Edufal ,2020, pp.197-214.

 

[5] Para uma ampla análise do tráfico de escravos da costa dos escravos, ver MAIA, Moacir Rodrigo de Castro. De Reino traficante a povo traficado. A diáspora dos courás do golfo do Benin para Minas Gerais. América Portuguesa, 1715-1760. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2022.

 

[6] “O canto era o ajuntamento de certo número de africanos, de preferência numa esquina de rua, obedecendo a um chefe denominado capitão do canto, ou simplesmente capitão, encarregado de ajuste e preços e de trabalho, incumbindo - se de distribuir aos sábados a importância a que cada um tinha o direito” Silva Campos apud Reiss 2019, p. 82).

 

[7] Ver Silva, Eduardo. Dom Obá D’África, o príncipe do povo. Vida tempo e pensamento de um homem livre de cor. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. O livro resgata a fascinante história de um filho de africanos forros nascido em Lençóis, no sertão da Bahia, por volta de 1845. Dom Obá D’África é um ex-combatente da guerra do Paraguai. Para uma revisão de historiografia tradicional sobre tal guerra veja, Doratioto, Francisco. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 

 

[8] Reis, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. 3ª ed. rev. e ampl. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.  São inúmeras as referências à revolta dos malês em Ganhadores, pela sua importância e por contribuir na compreensão da greve de 1857.

 

[9] Para aprofundar a questão da corporeidade na cosmopercepção africana, ver Antonacci,, Maria Antonieta. Memórias ancoradas em corpos negros. 2ª ed. São Paulo: EDUC, 2014; GIL. José. Metamorfoses do corpo.  Lisboa: Relógio D’água,1997.

 

[10] Ver Grahan, Richard. Alimentar a cidade: das vendedoras de rua à reforma liberal (Salvador) 1780-1860. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

[11] A historiografia tem inúmeros trabalhos sobre o tráfico, ver Rediker, Marcus. O navio negreiro.  São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Para uma resenha, cf. Brito, Ênio José da Costa. Leituras afro-Brasileiras. Reconstruindo memórias afrodiaspóricas entre o Brasil e o Atlântico. vol 3. Jundiaí: Paco Editorial, 2019, p. 64-76.

 

[12] Agamben, Giorgio.  Homo Sacer: o poder e vida nua I. Belo Horizonte: UFMG. 2004; TeixeiraTE, Eduardo Tergolina. O estado de exceção a partir da obra de Giorgio Agamben. São Paulo: Editora LiberArs, 2015

 

Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio.  Homo Sacer: o poder e vida nua I. Belo Horizonte: UFMG. 2004.

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REDIKER, Marcus. O navio negreiro.  São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

REIS, João José. Ganhadores. A greve negra de 1857 na Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

------. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. 3ª ed. rev. e ampl. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

SILVA, Eduardo. Dom Obá D’África, o príncipe do povo. Vida tempo e pensamento de um homem livre de cor. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

TEIXEIRA, Eduardo Tergolina. O estado de exceção a partir da obra de Giorgio Agamben. São Paulo: Editora LiberArs, 2015.



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