O protagonismo religioso de mulheres da Costa da Mina em Minas Gerais (Século XVIII)
- Ênio Brito
- 7 de jun.
- 6 min de leitura
[RODRIGUES, Aldair; MAIA, Moacir. Sacerdotisas Voduns e Rainhas do Rosário: Mulheres africanas e Inquisição em Minas Gerais (século XVIII) São Paulo: Chão Editora, 2023.]
A Inquisição teve uma presença marcante em Minas Gerais, com seus inúmeros funcionários: padres diocesanos, numerosos agentes civis espalhados pelos arraiais, chamados de “familiares do Santo Ofício”.
Sacerdotisas Voduns e Rainhas do Rosário: Mulheres africanas e Inquisição em Minas Gerais (século XVIII), organizado por Aldair Rodrigues e Moacir Maia, reúne a transcrição de manuscritos dos processos contra mulheres africanas vindas da África Ocidental da região denominada Costa da Mina, que no oitocentos exerceram uma liderança na região aurífera em Minas Gerais.
Sacerdotisas Voduns está organizado em quatro momentos: uma breve Apresentação, seguida da transcrição dos Manuscritos da Inquisição, um Posfácio, com os comentários e análises dos organizadores e um Anexo com o Testamento de uma rainha da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Para os organizadores, “o objetivo aqui, é buscar compreender a vida dessas mulheres para além dos estereótipos vinculados ao cativeiro” (2023, p.10). A seleção da documentação privilegiou processos que não chegaram ao seu termo, portanto, ocorreram as denúncias e não houve condenação por parte do Santo Ofício.
O controle da Igreja Católica
A Igreja católica ao acompanhar a implantação dos impérios coloniais do Atlântico, sistematicamente, demonizou as crenças e práticas culturais africanas. “Suas entidades foram sendo paulatinamente associadas ao demônio, e essa vinculação justificava as atividades repressivas que eram adotadas junto com a evangelização” (p.87) [1].
Os agentes da Inquisição da região mineradora davam suporte a atuação repressiva da Igreja, que tentou erradicar as práticas africanas. “Em síntese, na América portuguesa, todos estavam sob jurisdição dos aparelhos institucionais de defesa da ortodoxia e pureza da fé católica. Porém, a população negra tinha que lidar ainda com a vigilância das forças militares, sobretudo os homens do mato e capitães do mato. Eles estiverem presentes em casos apresentados neste volume” (p.99).
Na primeira metade do século XVIII, Minas Gerais recebeu muitos escravos vindos do Golfo do Benim, especialmente, os courá que praticavam a religião vodum. Os portugueses empregavam o termo genérico “Mina” para designá-los. O termo englobava, também, outros grupos como os Sabaru, Ladá, Fon, Cobu e Maqui [2]. “A escravização dos povos de nação Mina da área vodum ocorreu sobretudo no contexto dos conflitos relacionados à expansão do reino do Daomé (p.100).
Antônio da Costa Peixoto deixou-nos um registro precioso – um vocabulário -, da língua geral da Mina. Nele, “vodum é a palavra utilizada para nomear a religião, as divindades e as forças invisíveis” (p.106) [3].
Entre os escravizados presentes na capitania se destacam as “pretas minas”, vindas de complexas sociedades africanas do interior do Golfo do Benim. Graças às suas bagagens culturais e religiosas puderam reconstruir suas vidas conquistando a liberdade.
A religião vodum na diáspora
Tudo indica que o culto ao vodum da serpente (Dangbé) vinculada à serpente piton do reino de Uidá, era amplamente praticada por africanas nas cidades auríferas. O culto propiciava “a comunicação com o ‘outro mundo’ para obter assistência espiritual sobre a condução dos assuntos ‘neste mundo’ (p.111)[4]. O culto tinha também uma forte dimensão política, sendo praticado tanto pela elite como pelo povo.
Sacerdotisas experientes e poderosas eram responsáveis pelos processos de iniciação dos adolescentes. No culto só as mulheres incorporavam. No momento da conquista de Uidá pelo Daomé, em 1727, o culto a serpente passou a ocupar um lugar secundário no panteão daomeano. “Muitos sacerdotes e sacerdotisas de Uidá acabariam sendo deportados para as Américas” (p.119). Entre os grupos étnicos escravizados encontra-se os courá, ou courano. “Os couranos eram um dos grupos mais presentes entre os afro-ocidentais que viviam na zona aurífera” das Gerais (p.120).
Em Minas, Teresa Rodrigues e Manoel da Mina, ambos da Costa da Mina, praticavam rituais ligados a uma faceta doméstica da religião vodum associada à confecção do bo ou bóchio [5]. A comunicação entre o mundo visível e invisível era mediada pela materialidade como por meio de “paus pintados”, encontrados na casa de Teresa Rodrigues.
Sacerdotisas voduns: juízas e rainhas de Irmandades Católicas.
A documentação registra o “trânsito das sacerdotisas entre as devoções católicas negras e a as práticas religiosas de origem africana” (p.125-126). Sabe-se, ainda pela leitura da documentação que uma das características das práticas voduns é serem fluídas, abertas à incorporação de elementos novos. Essa dinâmica agregadora da religião vodum explica a apropriação seletiva de elementos católicos por pessoas da Costa da Mina a partir da própria cosmopercepção.
Na explicação da sacerdotisa Josefa Maria, “o Deus que cultuavam, tinha vindo da Terra de Courá, e que já vinha batizado por Nossa Senhora do Rosário e Santo Antônio, que vinham fazer milagres nesta terra de Paracatu” (p.130).
As sacerdotisas voduns Josefa Maria, Teresa Rodrigues e Ângela Maria Gomes, entre outras realizavam cultos em suas casas com intenso trânsito religioso entre o culto vodum e o culto católico.
A liberta Ângela Maria Gomes ocupou o cargo de rainha do Rosário, em 1751-1752 e 1771 e1772. “É como devota e rainha que Ângela Gomes deixa bens e móveis para a confraria como sua última vontade, o que revela o valor daquele espaço associativo para essa africana Mina” (p.135) [6].
Muitas mulheres da Costa da Mina exerceram cargos importantes nas irmandades. “Foi o que aconteceu com a preta fora Mina Joana Marques dos Reis, destacada irmã de mesa por dez vezes e, em duas ocasiões, juíza de Nossa Senhora do Rosário do Pilar, em Ouro Preto” (p.141). Luísa Felizarda da Glória, moradora de Vila Rica de Outro Preto, Maria Ferreira do Rosário, Ana Florinda da Ressurreição ex-escravas, como libertas exerceram importantes cargos nas irmandades. Na diáspora, o culto vodum passou por transformações e pela ampliação do compromisso religioso das mulheres. “É importante lembrar que tais inovações e diálogos aconteciam a partir de lógicas africanas” (p. 148).
Pontuações finais
A reconstrução histórica das religiões afro-brasileiras é uma tarefa desafiadora dada aos conhecimentos exigidos, como conhecimentos etnográfico e histórico. Sacerdotisas Voduns e rainhas do Rosário (século XVIII) oferece uma riqueza de informações sobre dimensões pouco conhecidas de mulheres e homens africanos, que viviam na região mineira setecentista. Informações, especialmente, sobre a religião vodum, ainda pouco estudada na historiografia e nos cursos de ciência da Religião no Brasil.
As transcrições de cinco processos inquisitoriais do acervo do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal, cujos réus na sua maioria eram courás, do grupo linguístico gbe, convidam os leitores (as) a considerar algumas questões importantes.
Convite a pensar as religiões afro-brasileiras não apenas em termos de continuidade e sobrevivência, mas sim como um processo de interações constantes, no qual ocorriam assimilações, agregações de outras expressões religiosas. “Para essa africana [Ângela Maria Gomes] e demais indivíduos provenientes da área vodum, a devoção, o temor e o respeito às divindades e mesmo a incorporação de novas deidades, fossem voduns ou santos católicos, ou de outra prática considerada sagrada/mágica, potencializavam o contato com o mundo invisível e maior proteção e caminhos abertos no mundo visível” (p.96). Convite a estabelecer laços atlânticos, laços entre as populações da África Ocidental e as afro-brasileiras. Convite a reconhecer o significativo pluralismo religioso presente na Costa da Mina, pluralismo este baseado na tradição de tolerância religiosa. O texto nos lembra o fato da incorporação do culto a serpente de Uidá pelo reino do Daomé,
Quando se lê os manuscritos, salta aos olhos a questão de gênero, que merecia ser bem mais explorada no posfácio. Importância que é reconhecida pelos próprios organizadores do livro: Os manuscritos “em seu conjunto, convidam o leitor a considerar a questão de gênero como fator importante para os deslocamentos promovidos pelo tráfico, para a própria escravidão e para a questão das hierarquias na cor da pele. No Brasil escravista, tais elementos impactaram de forma diferente a experiência feminina e a experiência masculina na escravização” (p 10).
Sacerdotisas Voduns e rainhas do Rosário (século XVIII) ao combinar transcrições de fontes primárias e análise histórica aponta para os futuros leitores (as) questões analíticas fundamentais para uma adequada compreensão da vivência das religiões afro-brasileiras.
Leitura recomendada para todos (as) que desejam conhecer um pouco mais dos circuitos religiosos da diáspora negra, em particular do papel fundamental que a religião vodum desempenhou na vida de africanas e africanos no país.
Anotações
[1] Passaremos a indicar apenas a página do livro
[2] Para aprofundar a análise da diáspora courá em Minas Gerais, ver MAIA, Moacir Rodrigo de Castro. De Reino traficante do povo traficado. A diáspora dos corás do golfo do Benim para Minas Gerais. América Portuguesa, 1715-1760. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2022.
[3] PEIXOTO, António da Costa. Alguns Apontamentos da Lingoa minna com as Palavras Portuguezas correspondentes. Manuscrito, Biblioteca Nacional de Lisboa, 1731 (F. 2355 Códice 3052).
[4] Para informações sobre o culto da serpente, ver LARANJEIRA, Lia Dias. O culto da serpente no reino de Uidá; um estudo da literatura de viagem europeia: século XVII e XVIII. Salvador: Editora UFBA, 2015.
[5] “Os bo podem ser definidos como ‘complexos materiais consagrados’ ou ‘objetos de poder’ com uma pluralidade de funções propiciatórias, preventivas ou maléficas. Já os botchio eram “figuras antropomórficas de madeira que podiam constituir um dos elementos do bo, mas que não se confundem com os voduns” (Cf. p.123).
[6] Os autores usam os termos confraria e irmandades com o mesmo significado.
Ao fazer compras pela Amazon pelo link acima, você estará colaborando com a continuidade do nosso site.




Comentários