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Um preto no altar


Um preto no Altar. Resistência e protagonismo em um território de disputas, de Alvaci Mendes da Luz, publicado pela Editora Vozes é fruto da dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós Graduação de História Social da PUCSP, em 2022. 1Tive a oportunidade de participar em São Paulo do lançamento do livro juntamente com Maria Quintão, historiadora especialista no estudo das irmandades e Luis Alberto Schnaider, que orientou o trabalho.  O lugar escolhido para o lançamento não poderia ser melhor, o espaço cultural religioso do Museu de Arte Sacra. 

Muito se pode comentar sobre o livro Um preto no altar, por isso mesmo, optei, por fazer algumas anotações que organizei em dois movimentos. No primeiro, apresentarei brevíssimas considerações sobre as irmandades em geral, com a intenção de estabelecer um horizonte para nosso olhar sobre elas, em seguida tecerei alguns comentários sobre o livro, destacando alguns tópicos que considero significativos, na esperança de contribuir com uma leitura mais cuidadosa por parte do futuros leitores (as) que certamente não serão poucos. 

Mas antes, quero dizer que o autor foi muito feliz ao escolher como tema de pesquisa a Irmandade de São Benedito do Largo São Francisco, em São Paulo. Irmandade, que marcou presença significativa na cidade de São Paulo.  O tema fascinante, pois, permite/ possibilita revisitar facetas da rica história das Irmandades Negras no Brasil constatando tradições compartilhadas em “entre lugares”. 

As levas de escravizados (as) que aqui chegaram foram capazes de reconstruir laços de pertencimento, de linhagem e de parentesco. Não podemos esquecer, que os membros das irmandades se autodenominavam de “Parentes”. Um dos livros sobre as irmandades de Antônia Quintão intitula-se, “Lá vem o meu parente”. As irmandades de pretos e partos no Rio de Janeiro e em Pernambuco (século XVIII).  

Lembro, ainda, que negociações constantes pautaram a vida dessas Associações, que negociavam festas, tempo de lazer, casamentos e alforrias. Sob a invocação de seus Santos e Santas Padroeiras, - como São Benedito, Santa Efigênia, Santo Elesbão, Santo Antônio do Categeró e Nossa Senhora do Rosário –, as irmandades fizeram das festas, das inumeráveis procissões e de seus festivos enterros encenações de sua cosmo-percepção, marcada pela compreensão unitária do mundo e comunitária da sociedade. (Antonacci,2014). 

 Centenas de Irmandades espalhadas por todo o território nacional, fizeram delas espaços de solidariedade, de partilha e de fraternidade; fizeram delas espaços de profunda religiosidade híbrida, pois, a porosidade das culturas de matriz africana possibilitou  diálogos e cruzamentos com a visão católica, fizeram delas espaços políticos de resistência e luta construindo redes de contato, de ajuda mútua tudo isso longe dos olhares dos senhores e das autoridades eclesiásticas.  

Um preto no altar está estruturado em três capítulos respectivamente: Irmandade de São Benedito em conventos franciscanos. Vamos lembrar, que os franciscanos foram os grandes promotores da devoção a São Benedito, em toda a América Portuguesa e Espanhola. A grande maioria dos conventos franciscanos no Brasil abrigava uma irmandade dedicada a São Benedito. A força do franciscanismo e o carisma de São Benedito popularizaram seu culto, que no Brasil adquiriu proporções extraordinárias. Igreja de São Benedito do Largo São Francisco: reivindicando lugar e Um preto no altar: a consolidação na década da abolição, momento em que os irmãos materializam seu poder ao introduzir a imagem de São Benedito no altar mor. Lendo essa estrutura, como se fosse uma pauta musical, diria que: o capitulo primeiro é o “prelúdio”, o segundo o interlúdio e o terceiro o gran finale. 

Luz se propõe responder a seguinte questão: como uma irmandade negra se advogou detentora de uma Igreja particular no centro da cidade de São Paulo, tendo de um lado uma Ordem Terceira e do outro uma Faculdade de Direito, num contexto social já desfavorável, de um modo geral, para as irmandades?  

 Porque desfavorável? De um lado, o processo de romanização já vinha sendo implantado pela Igreja católica, do outro um processo incipiente de modernização da cidade estava em curso. Nesse contexto: Igreja e Estado procuravam controlar a vida e as atividades das irmandades! 

Ao responder, com competência, a questão colocada, o autor retirou do esquecimento / do silenciamento a incrível performance da Irmandade de São Benedito do Largo São Francisco, que colocou um santo preto, no lugar mais alto do altar principal de uma igreja particular, em fins do século XIX. 

Um preto no altar relata o longo caminho percorrido pela Irmandade para introduzir   São Benedito como oraculo, isto é, como padroeiro de Igreja do Convento de São Francisco. História fascinante e surpreendente. 

Destaco em seguida, alguns méritos do livro entre outros: ter aberto um amplo diálogo com a historiografia renovada da Diáspora. Desde a década de 1970, os estudos sobre a Diáspora Africana no Brasil tem se multiplicado seja sob o aspecto teórico como no âmbito da pesquisa empírica, pontuando tendências, e temas emergentes e desafios, graças ao empenho diuturno de historiadores e historiadoras espalhados pelo pais em importantes Programas de Pós-Graduação em História; ter mostrado a resistência/ agencia da Irmandade. O verbo reexistir foi conjugado de vários modos pelos confrades durante a longa permanência da Irmandade nesse espaço nobre da cidade; ter sinalizado para a ocupação do espaço no centro da cidade de São Paulo, ao lembrar-nos que : “ os entornos das Igrejas  de Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito,  eram lugares onde aconteciam “ práticas de danças de pretos”. Pois bem, essa ocupação do espaço pode e deve ser entendida como transformação dos mesmos em “espaços insurgentes”, isto é, como espaços re-imaginados, como espaços de liberdade, onde os irmãos e irmãs participantes das irmandades reivindicavam cidadania. (Yoko Miki,2021) 

Ter mencionado, ainda que brevemente, a presença/ o papel / a importância das mulheres na Irmandade. Tópico relevante, pois, só recentemente, a historiografia tem incorporado a questão de gênero nas pesquisas sobre a escravidão. Durante um bom tempo, as pesquisas históricas se referiam aos escravizados de forma geral, como se fossem isentos de gênero e sexo e pudessem ser inseridos numa categoria única. Sabemos, que a sociedade escravocrata colocou a mulher escravizada no papel de dupla produtora da riqueza escravista, o que sublinhou ser o corpo das escravizadas o próprio locus da escravidão. 

O fato da Irmandade ter conseguido, com grandes sacrifícios, é verdade, colocar no altar principal da Igreja do Convento São Francisco, a imagem de São Benedito, o negro, o mouro, o africano e rebatizar a Igreja, revela para os futuros leitores (as), o quanto a irmandade tinha conhecimento da situação sócio-política-religiosa da cidade. Dito de outra maneira, a atuação da irmandade revela uma refinada estratégia política, planejada e realizada no tempo oportuno. O que nos levar a pensar numa “alfabetização política”  dos membros da Irmandade. 

Um preto no Altar, gradualmente, mostra-nos algo muito significativo, que a Irmandade de São Benedito do Largo São Francisco escolheu, uma forma própria de viver, conviver, sobreviver e reexistir. Escolha, que foi sendo moldada com sabedoria, constância, e sagacidade pelos confrades dentro de suas possibilidades, num tempo no qual o território/ o espaço do centro da cidade estava em disputa. 

A Irmandade de São Benedito do Largo São Francisco, ao longo de sua permanência no centro, realizou um resgate subliminar de tempos e espaços comunitários, de representações de seus universos cósmicos e resguardou suas escritas performáticas em manifestações públicas, linguagens simbólicas e experimentos de sociabilidade comunitária. 

Considerações finais 

Um preto no altar dá uma contribuição significativa para a historiografia da cidade de São Paulo ao: tirar da sombra  dimensões importantes e pouco conhecidas da atuação política-religiosa da Irmandade de São Benedito; apontar para o importante papel social e religioso da irmandade na cidade de São Paulo e, ainda, ao sinalizar nas entrelinhas aos futuros leitores e leitoras a importância de se continuar na luta contra as desigualdades e na construção de uma sociedade antirracista, na qual caibam todos e todas.  

O estudo das irmandades, em geral, impõe um desafio para historiadores (as) e pesquisadores(as) das religiões de matriz afro-brasileira: o desafio de analisar com mais profundidade a reinterpretação, pelas irmandades dos ícones religiosos cristãos, investidos em novas concepções semânticas. Nessa perspectiva analítica, a devoção aos santos e santas reveste-se de instigantes significados, pois, os santos e santas cristãs tornam-se transmissores da religiosidade africana, barrada pelo sistema escravocrata e pela interdição dos deuses africanos (Martins, 1997) 

Bibliografia  

ANTONACCI, Maria Antonieta. Memórias ancoradas em corpos negros. São Paulo: EDUC,2014. 

LUZ, Alvaci Mendes da. Um preto no Altar. Resistência e protagonismo em um território de disputas. Petrópolis: Editora Vozes, 2022. 

Martins, Leda Maria. Afrografias da memória. O reinado do Rosário no Jatobá. São. Paulo: Editora Perspectiva/Belo Horizonte: Mazza Editora, 1997.  

MIKI, Yuko. Política antiescravista na fronteira: São Mateus, Espirito Santos(1884). In: REIS, João José; GOMES, Flávio dos Santos. (Orgs.). As revoltas escravas no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2021

 
 
 

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